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Re-União 2017

Um tapa na cara da burguesia

April 16, 2017

Igor, após se ausentar durante mais de uma semana das aulas, retornou certo dia portando misteriosamente uma pasta, no interior da qual estavam umas pinturas que ele, após fazer digressões sobre o conceito (ou a absoluta falta disso) de arte, me apresentou de modo solene.

 

Os papéis, notei assim que me aproximei, tinham um odor desagradabilíssimo, o que me motivou a perguntar ao colega se, por acaso, ele os havia deixado cair na fossa.

 

- Não, cara, aí é que está: eu pintei essas gravuras com merda.

 

 

- Como?

 

- Isso mesmo, peguei umas fezes e pintei essas gravuras aqui, ó – disse tirando

o material da pasta e exibindo uma a uma.

 

Antes que eu me desse ao trabalho de expressar qualquer juízo de valor a respeito de suas “pinturas”, Igor me disse que a escolha do material que usou como tinta se deu em razão de sua pretensão de levar o público a refletir sobre o verdadeiro significado da arte, enfatizando que “não se pode impor amarras à arte, de modo que a nós, artistas, é permitido transformar qualquer coisa em arte, até mesmo merda”.

 

- Mas com o tempo os desenhos vão deixar de… digamos… vão deixar de exalar esse odor e pouca diferença vai fazer terem sido feitos com tinta ou cocô – falei. Além do mais, as pinturas podem sumir com o tempo, e passarão a ser só uns borrões sem qualquer valor estético. Vão deixar de ser obras de arte feitas com bostas e passarão a ser verdadeiras bostas, pretensamente classificadas como obras de arte.

 

- Independentemente disso, o mais importante é que ficará registrado que os quadros foram pintados com fezes. A informação que vai constar na etiqueta do quadro sobre a técnica utilizada vai dizer… merda sobre tela – falou mostrando as palmas das mãos com os dedos apontados para cima, como que a contemplar um cartaz.

 

Só a partir de então me dei ao trabalho de apreciar os desenhos, que embora não revelassem um grande talento, ao menos pretendiam demonstrar que ali se encontrava um artista de vanguarda.

 

- Como você conseguiu fazer volume e sombra nas figuras? - Perguntei.

 

- Como assim?

 

- Você faz uma transição de tons, para conferir volume e sombra aos objetos, mas como você utilizou um material que geralmente só tem uma cor, me questionei como conseguiu fazer o degradé.

 

- Misturei cocô com tinta branca – respondeu.

 

- Então neste caso a técnica não vai ser merda sobre tela. É técnica mista –

Falei sem me dar conta da decepção que se estampou em seu rosto.

 

- Não, cara. Posso dizer que a técnica é fezes e acrílico sobre tela.

 

- Mas isso é inadequado. Suponhamos que você utilizasse acrílico e pastel, o que constaria na etiqueta? Técnica mista.

 

- Não havia me dado conta disso – Falou guardando suas obras na pasta e se sentando no meio-fio ensimesmado.

 

- E se você não misturasse tinta? - Perguntei.

 

- Não ficaria legal, porque as figuras só teriam uma cor.

 

- Então você tem duas opções: ou aprende a pintar de verdade e faz alguma coisa que presta utilizando técnicas convencionais, ou tentar fazer uma dieta de modo a fazer com que você cague em vários tons diferentes. Por exemplo, numa semana você só come comida escura, tipo feijão preto e açaí. Na outra só come arroz e verdura. Aí, talvez, você terá matéria-prima para fazer merda de cores diferentes.

 

Igor murmurou uns lamentos, chegando a afirmar que não pretendia “fazer obras convencionais, utilizando técnicas convencionais”.

 

- Minha intenção é chocar o status quo – disse ele - Tirar esses engomadinhos que costumam frequentar os vernissages de suas áreas de conforto, demonstrando que até obras de arte que eles almejam ostentar nas paredes de seus apartamentos de classe média podem representar quão merda é nossa sociedade. Minha arte vai ser um tapa na cara da pequena burguesia – finalizou.

 

- É, então é bom desenvolver outro método para fazer isso aí que você pretende. Se o Duchamp não tivesse tido aquela ideia de expor uma privada na galeria de arte, você podia fazer isso agora – brinquei.

 

- Cara, é isso! Vou dar um passo adiante nessa ideia do Duchamp. Em vez de expor uma privada vazia, vou expor várias privadas, cada uma com um tipo de bosta diferente.

 

- Mas isso é o tipo de obra de arte que não dura, porque em pouco tempo se degrada. Acho que com isso você não vai conseguir deixar qualquer legado às gerações futuras – ponderei.

 

Igor foi embora pensativo, e me descreveu no dia seguinte como pretendia incrustar sua “matéria prima” em resina transparente, que simularia água, e as colocaria em vasos sanitários, que comporiam a exposição.

 

Não levei aquela conversa a sério, mas devo confessar que me alegrei ao receber o convite de sua exposição, no qual ele colocou uma carinhosa dedicatória à minha pessoa.

 

- Certamente a crítica conservadora vai cair de pau em cima de mim – disse o

artista, denotando que torcia para que isso ocorresse, o que o colocaria no rol daqueles que ao longo da história se notabilizaram por quebrar tabus e foram criticados pela opinião pública retrógrada, incapaz de compreender os vanguardismos em voga.

 

Mal sabia meu prezado amigo que aquela seria a única exposição de sua vida, já que aquilo que ele epitetou de “crítica conservadora” teceu desavergonhados comentários ao “trabalho pretensamente transgressor de um artista que repete fórmulas antigas como se fossem novidades”.

 

- Só faltou eles falarem que eu sou conservador – chegou a me dizer naquela mesma semana, mal conseguindo disfarçar a voz embargada pelo choro ao anunciar que estava abandonando as artes plásticas.

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