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Re-União 2017

Quantas coisas um muro pintado de cinza quer dizer

April 17, 2017

Num beco que ficou famoso, na Vila Madalena em São Paulo, numa manhã de abril, apareceu uma parede cinza no meio das outras todas muito coloridas por grafites que vêm se juntando ao longo de anos.

 

Esse beco, nos fins de semana se fecham as ruas e transforma-se num largo festivo. Muita gente, muita cerveja, drogas, música alta até o amanhecer.

 

 Os donos dos muros que foram emprestados para colorir tentam dormir em suas casas, não conseguem e chamam a polícia. Repetidas vezes. Ela não vem.

 

Afinal, seu João não aguentou mais e resolveu fazer um protesto. Pintou seu muro de cinza.

 

As pessoas que hoje passam pelo beco se surpreendem, se entristecem, era tão bonito!

 

No outro dia nos jornais veem a foto do seu João que mandou pintar seu muro de cinza. Num jornal estrangeiro uma notícia sobre o cinza tomando conta de São Paulo. E pensam: será que esse cavalheiro de semblante sisudo, parece mesmo emburrado, tem o direito de azedar as noites alegres dessa gente que vem de tão longe ter umas horinhas alegres no seu fim de semana? Imagine!

 

Até repercussão internacional teve...

 

Mas, que mais poderia fazer ele, para tentar recuperar alguns direitos que vêm com sua propriedade, como o de ter algum silêncio para dormir nos fins de semana? A quem mais recorrer?

 

Por algum motivo a gente que ocupa o beco com sua festa não vê isso como invasão nem como indevido. Devem achar que têm direitos sobre o espaço, direito de fazerem o que fazem. Afinal ninguém diz nada. A polícia não aparece nem diz nada. “E se aparecerem e fizermos algum alvoroço e eles recuarem temerosos de serem acusados de violência; devemos entender que no final de contas temos mesmo o direito de fazer o que fazemos.”

 

A atitude solitária do seu João era um protesto contra a omissão covarde de agentes responsáveis reprimirem abusos. Essa omissão é de todo um governo cúmplice de uma progressiva ocupação por gente que ouve pelos cantos discurso de como foram e são oprimidos por “essa elite”. Qualquer um que tenha mais que eles deve tê-lo conquistado de modo escuso.

 

E assim vão ocupando os espaços das pessoas, os becos, as praças as ruas os viadutos. Colocando suas barracas, colchões, garrafas de pinga vazias quebradas espalhadas. Às vezes no canto urinando, a vista de quem esteja passando, não se atreva o incauto transeunte lancar um olhar surpreso ou pior, ofendido. Ora, baixe seus olhos elite opressora!

 

A atitude corajosa do seu Joao Batista da Silva nos lembra de que é bem tempo de fazer algo.

 

Por que é bom lembrar o que um dia disse um poeta: “um dia entra e roubam uma flor de nosso jardim; e não dizemos nada”.

 

“Na segunda noite, já não se escondem , pisam as flores, matam o nosso cão e não dizemos nada.”

 

É tempo de aplaudirmos essas bandeiras cinza dos Joãos Batistas e Dorias e começarmos a fazer e dizer algo logo, antes que um dia “o mais frágil deles entre sozinho em nossa casa, roube a nossa luz, e conhecendo nosso medo, roube nossa voz.”

 

(foto: Chello/FramePhoto/Folhapress)

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