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Re-União 2017

Móbiles

May 17, 2017

 

Jogando conversa fora: eu estava numa exposição, em NY. Muita gente olhando peças e pinturas incompreensíveis. Era no Whitney Museum. Eu, lá no meio das gentes, tentando me acertar com o ambiente. Meio que empurrado, dou para trás um passo em desacerto e sinto uma coisa debaixo da sola de meu sapato. Sabe quando você pisa numa bosta de cachorro e levanta o pé para examinar o estrago?

Fiz assim e um guarda do museu correu pra cima de mim, me puxando para o lado, berrando: “não pise aí, nessa obra de arte!” O que? Olho para baixo e percebo derramado ali no chão, um vômito. Tinha lá uma espécie de mingau, uns pedaços de verdurinha, coisas do tipo. Seria um Mac descomido?

 

 

Tudo aquilo selado dentro de uma cobertura plástica rija, transparente. Era isso que o guarda fazendo, ao afastar todo mundo que, sem querer, pisasse naquela “arte conceitual”. Me mandei, saí meio sacaneado. E divertido ao mesmo tempo. Qual seria o significado daquele vômito? O curador da exposição devia ter altas explicações sofisticadas para aquele dejeto.  Eu, que sou meio grosso, nunca entendi direito tais viadagens “artísticas”. Enfim. Lembro isso agora porque foi com o mesmo espírito zombeteiro que vi, pela primeira vez, um móbile do Calder.

 

Até então, o móbile me parecia um desses brinquedos coloridos e bimbalhantes que são pendurados em cima do berço para distrair crianças. Levei anos para reconhecer que o móbile é um jeito extravagante de entender o mundo, que se mostra sempre volúvel, com seus pesos em vermelho, azul, amarelo rodando instáveis, amarrados em varetas que sobem e descem. Esses movimentos erráticos só dependendo de uma corrente de ar, de uma porta que abre, um filho que nasce, um casamento que acaba, um câncer que acontece. O móbile como a figuração de um destino sem controle, longe de nossa vã possibilidade de entendê-lo. A arte conceitual é assim, tão interessante quanto a nossa vida . Dependendo só do vento.

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