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Re-União 2017

Momento dramático

June 14, 2017

 

Muita gente mudou - ou está em vias de se mandar do Brasil. Baixou aqui um nevoeiro brabo.  Viramos um país de emigrados. Meu avô, fez o caminho contrário: deixou sua pequena cidade, Argenta, na Itália e refez a vida aqui. Alguns anos atrás resolvi conhecer a cidade de onde ele veio. Inverno, tudo deserto, entrei num bar onde velhos gritavam scopa! jogando baralho e fumavam cigarros de fumo negro. Pedi uma grappa, um charuto e por pouco não chorei, cada velho dali era meu nonno. Saí para fora, no vento gelado e olhei para o campo cinzento, as videiras sem folhas, tudo como morto. Depois, num restaurante quase vazio, o dono me preveniu que tomasse cuidado, ao anoitecer. Medo dos ciganos. 

 

Aqui a classe média vende sua casa e arrisca ir embora, para qualquer lugar que ofereça uma chance. As pessoas desistiram do Brasil, sua fuga é o atestado de impotência de que fomos tomados. Os jovens estão aturdidos. Meu filho caçula, Zeno, está em Berlin, tentando a vida, na batalha. E seus amigos, aqui, estão tentando seguí-lo. O Diogo, em Veneza, de onde manda seu Antagonista. O mais velho, Vini, foi para Porto Alegre, desistiu de fazer cinema, e está em processo de muda. Queremos virar emigrantes, até aceitando condições humilhantes, para atravessar esse rio de profundidade desconhecida, enfrentando um futuro duvidoso. Está tudo meio ruim em todo mundo - mas parece que aqui está pior. 

 

Não queremos virar uma Venezuela, essa é ameaça real. Um governo decente deveria nos dar essa segurança. O Temer podia ir ao pé da lareira, todas as noites, para conversar com o povo - como fez o Roosevelt, em tempos de guerra. Nós estamos em guerra. Mas nos faltam a lareira e o Roosevelt, que levantou o ânimo dos americanos, convencendo o país a enfrentar o nazismo e levando o país à vitória. Um Trump já nos faria muito bem. Não temos um líder. Nós, os que ficamos, temos que reagir à maré da corrupção e apodrecimento da Nação, resultado da inércia provocada por tantos anos de alienação em que estivemos mergulhados. Estamos aprendendo como. Nossa pressa, agora, nasce de entender que o país está desmilinguindo vertiginosamente. Estamos todos, de alguma forma, tentando sobreviver, os que se vão e os que ficam, neste momento dramático.

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