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Re-União 2017

Os cem livros que mais influenciaram a humanidade.

July 21, 2017

É lícito cultivar um discreto orgulho da visão que se tem de algo muito claro, mas que se acomoda na penumbra para a grande maioria. O mestre Nelson Rodrigues percebeu esse mérito e tascou que só os profetas enxergam o óbvio. 

 

Hoje acordei antes do sol; já na primeira espreguiçada mental (a mente também espreguiça), me lembrei que temos um STF. E que por trás desse órgão havia uma penumbra escondendo o óbvio que ninguém enxergava.

 

Sua total inutilidade. Mas não a inutilidade por falta de ação, muito pior. Inutilidade por excesso de ação, contrária à função que deve ter um órgão de Justiça, que é, fazer justiça. Fui o primeiro a pedir o fim do nosso Supremo, que age com supremacia apenas para garantir a liberdade de ação dos nossos bandidos da urna eletrônica. Sem alusão ao da luz vermelha. 

 

Passei a advogar o fim do STF com sincera certeza do bem que isso fará ao Brasil. Cheguei a escrever um texto ousado, que repercutiu pouco; a penumbra atrai muitos; disse que na primeira oportunidade que me encontrar com um desses moços que se vestem de morcego, numa rua ou aeroporto, daria voz de prisão. Acho que todo cidadão brasileiro tem o direito, não Direito, mas direito de prender nossos criminosos notórios. Meu deus, como esse órgão sustenta a desgraça da Nação!

 

Mas depois da primeira espreguiçada o órgão nefasto saiu de cena e o dardo da memória saiu atrás de coisas boas da vida. Foi quando, ao acaso, me lembrei de um livro lançado na década de noventa, com o sugestivo título "Os cem livros que mais influenciaram a humanidade". Título mais comercial, impossível. Entendo que a indústria literária precisa faturar, e livros que sustentam a cultura superficial são importantes aliados da superficialidade. Eu comprei a obra com aquela sensação de quem vai finalmente saber quais são os cem livros que mais influenciaram a humanidade.

(O STF já sumiu daqui, sorriam).

 

Mas acontece que sou espírito de porco. Não sou fácil de enganar. - Logo saí catando Dostoevsky, não achei. Já fiquei puto com o autor. Mas Tolstoi está lá, com seu guerra e paz. Bom. Mas nosso Fiodor, que fez mais pela literatura psicológica do que todos os autores de todos os séculos, juntos, está ausente. Cresceu em mim a má vontade com o autor, ao ponto de então exigir a presença de um escritor brasileiro. Mas descobri que ainda não foi escrita uma obra nacional para influenciar a humanidade. Graças a deus! - De má influência a humanidade já está cheia. Imaginem se o maranhense Sarney resolve sair do Amapá agarrado à sua veia literária, e avançar munido de ambições universais. 

 

Cada livro dos Cem tem um resuminho, muito mal escrito. Boto a culpa no tradutor, que, se o livro está mal escrito tem a obrigação de reescreve-lo com um mínimo de estilo. Tiro a culpa do tradutor, acho que o autor é mal estilista mesmo. E minha implicância com os cem livros que mais influenciaram a humanidade chegou ao ápice quando descobri Sexto Empírico. Ninguém é espírito de porco de graça, acreditem. Como pode um livro escrito numa era, vejam bem, não época, era, em que a humanidade era toda analfabeta, influenciar a humanidade sem um mínimo de divulgação popular ao longo dos séculos? - Tudo bem, a bíblia também é de uma era de analfabetos, nem Jesus sabia ler, e sem ter papel e lápis também não sabia escrever. Mas foi escrita por muitos espertinhos que se revesaram ao longo dos séculos, e conquistaram leitores assíduos. E é sem dúvida o livro que mais influenciou a humanidade. Ia dizer que influenciou tolos, mas o espírito não é esse, por isso não digo. Não disse, ouviram tolinhos? - Mas Sexto Empírico é empirismo demais para o meu gosto.

 

Está ficando longo demais e ainda não cheguei no tema nuclear que despertou minha memória: Ivan Turgenev. Mas não poderia esquecer que antes do sol me lembrei do STF e nem deixar de passar pelos cem livros e registrar que o autor - já morreu, mas faturou uma grana preta - além de Dostoevsky deixou de fora Turgenev, o mais revolucionário escritor da fantástica plêiade de russos. É por causa das ausências que nunca esqueço desse livro.

 

Não há mais espaço. Deixo Turgenev para amanhã. Ele conquistou em mim um amigo pós vida, um amigo do peito, merece ser reverenciado.

 

Agora vou botar o samovar no fogo e esquentar água para um chá, como um bom mujique da Barra do Sana.

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