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Re-União 2017

Nossas muitas línguas.

August 20, 2017

 

Meu amigo teve um treco no cérebro. Acho que foi um aneurisma cerebral, sei lá. E ele ficou apagado, sem qualquer reação. Fui visitá-lo no hospital, esticado na cama, mal se percebia sua respiração. Falei com o médico, comovido. O diagnóstico é que ele estava nas últimas, literalmente. Mas depois, contra tudo e todos, ele acordou como se nada tivesse acontecido. 

 

Fui vê-lo, outra vez. Eu lhe perguntava coisas e ele respondia. Mas só que

ele falava numa língua absolutamente estranha. Eu não entendia uma palavra. Nem ninguém. Tentaram inglês, que ele conhecia. Francês, espanhol - e nada.

Até que alguém descobriu: a língua era a basca. E com o tempo ele reaprendeu português. 

 

Alguém então me explicou que a primeira língua que se aprende, na infância, fica gravada no disco rígido do cérebro. Essa é a língua-base do indivíduo. Dessa língua não se esquece jamais. Outras se sobrepõe e podem até desaparecer, num acidente, por exemplo. Mas a língua primeirona fica lá, guardada. 

 

Minha primeira língua é italiana. Fui me virar em português quase que ao mesmo tempo. Na casa de meus avós, que me criaram, só se falava italiano.

No grupo escolar, por causa do acento, me chamavam de italianinho. Meu avô me fez aprender a cantar os hinos fascistas. E tentou me ensinar matemática, álgebra, ele era engenheiro. Mas desistiu, minha cabeça não funcionava para os números.

 

Lembro de tudo isso, agora, porque estou envelhecendo depressa. Semanas valem por anos. E curiosamente minha primeira língua me volta, sem eu pedir. Canções, o Beniamino Gigli, registros de frases absurdas, antigas. Um pedaço meu ressuscita, cada dia, esporadicamente. E vou me redescobrindo. Minha língua é um pouco o italiano. Espanhol, que me é tão familiar. E inglês, que tomou conta de mim, por causa dos filmes americanos. E o Cole Porter. 

Francês do Liceu Pasteur, a Edith Piaf. 

 

Hoje sou um pouco de tudo. Sou principalmente venezuelano, de Caracas.

Sou da América Latina, inteira. Nestes dias, divido com a Venezuela o seu sofrimento, pelo que o país está passando sob a ditadura narco-corrupto-comunista do Maduro. E olho pra lá, o país vizinho, num misto de compaixão e cumplicidade. Minha venezuelidade de agora me ajuda a querer um mundo com menos injustiças. Mais fraterno.

 

Sou brasileiro, sim. Mas sou do mundo, e minha consciência quer ser a do universo. 

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