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Re-União 2017

Saber calar-se é uma arte

August 29, 2017

São raros os que dominam todas as ramificações da arte. Dança, canto, interpretação, pintura, artes plásticas. Para atingir-se um nível de excelência em determinada atividade, outras devem ser deixadas de lado. O homem dos sete instrumentos não toca bem nenhum, já diz o ditado popular.

 

Certamente foi o que ocorreu com Fernanda Torres. Conhecida e reconhecida por seu talento nas artes cênicas, a atriz se viu obrigada a concentrar esforços em seus talentos natos abrindo mão de outras vertentes artísticas, entre elas a conhecida e sábia arte de manter-se em silêncio.

 

Na última sexta-feira a atriz carioca teve publicada a sua coluna mensal no jornal Folha de São Paulo. Nela Fernanda relata sua visita ao presídio Evaristo de Moraes acompanhada do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ).

 

Após um rosário de relativizações e glamourizações, típicas daqueles que usam como referência os discursos do partido do deputado que a ciceroneava, a atriz finaliza seu texto da maneira mais estapafúrdia possível. “Mas bastaram 50 metros de caminhada naquela cela para experimentar a rotina de um barracão de Auschwitz, Treblinka, ou coisa que o valha”.

 

Fernanda  também afirma em seu texto que “ali, se amontoam condenados por estupro, assassinato e tráfico. É a escória do crime”. E para não passar em branco a relativização moral dos fatos, especialidade da esquerda, a atriz relata entre os encarcerados uma trans que viajou por toda a Europa, um preso que a recitou um poema e um ator que fez oficina de teatro com sua mãe, a também atriz Fernanda Montenegro.

 

Num país onde uma psicóloga vai perder seu único bem, um consultório, penhorado para pagar uma dívida de um terreno que não existe, como foi amplamente divulgado pelas redes sociais semana passada, ninguém espera que dentro dos presídios não haja aqueles que realmente estejam presos injustamente, fruto de um sistema podre que deve ser demolido e reconstruído do zero. Mas, a princípio, o que a atriz presenciou são presos que estão afastados do convívio em sociedade por representarem risco real à integridade das pessoas.

 

Se o Estado brasileiro não consegue manter em níveis minimamente aceitáveis inúmeras escolas e hospitais país afora, onde pessoas morrem nas filas de atendimento ou por falta de exames básicos, é de se imaginar em que situação se encontram nossos presídios, comparáveis, aí sim, à verdadeiras masmorras medievais. Mas daí a um campo de extermínio nazista há uma distância inalcançável.

 

Citado como equivalente ao presídio que acabara de visitar, o campo de extermínio de Treblinka matou 900.000 judeus em apenas 16 meses, uma média de quase 1.900 por dia. Ali também havia poetas, músicos e atores. Além de médicos, engenheiros, advogados, comerciantes, marceneiros, alfaiates, donas-de-casa e...crianças. Sim, crianças, Fernanda. Milhares delas.

 

Diferentemente dos presos do Evaristo de Moraes, os encarcerados de Treblinka, Auschwitz ou “coisa que o valha” (que expressão infeliz!), não eram cidadãos que ofereciam risco às sociedades alemã ou polonesa. Seus únicos crimes foram ter nascido judeus, segundo os critérios de Hitler.

 

Ao comparar um presídio repleto de assassinos, estupradores e seqüestradores a um campo de extermínio nazista, Fernanda Torres desce ao nível mais baixo do mau- caratismo. Até para a defesa de sua ideologia de estimação há que se ter um limite moral.

 

E para acrescentar insulto à injúria, a atriz foi visitar um presídio em companhia de um deputado de um partido que já queimou a bandeira de Israel em praça pública, chamou o ex-primeiro ministro de Israel Shimon Perez, prêmio Nobel da Paz, de genocida quando de sua morte e possui em seus quadros antissemitas que se travestem de “antissionistas”. Saber escolher suas referências é outra vertente das artes que a descolada e engajada atriz, pelo visto, teve que abrir mão.

 

Muitas vezes é melhor manter-se em silêncio e dar ao seu interlocutor a dúvida sobre sua ignorância do que abrir a boca e lhe dar a certeza. Fernanda Torres perdeu uma grande oportunidade de manter-se calada.

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