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Re-União 2017

Meu cachorro verde

October 20, 2017

 

Dizem que os cachorros não tem alma. Que Deus deu exclusivamente ao homem a condição de possuir alma, um espírito. Eu, que não sou versado no assunto, me dou o direito de discordar, a ignorância tem suas vantagens. 

 

Tive uma cachorra da raça akita, chamada Menininha, que tinha altos diálogos comigo. Ela era enorme e se enrodilhava  desajeitadamente no meu colo. Quando conseguia alguma estabilidade, erguia sua cabeça olhando para meu rosto, dava um longo suspiro, esticava o pescoço e se punha a cochilar. Ela, definitivamente, tinha alma. 

 

Quem tem cachorro entende o que quero dizer. Chamar minha Menininha de bicho, animal, era uma ofensa grave. Ela era zen. E eu a amava. Enfim, ela morreu, vamos mudar de assunto, que este está ficando triste. Na rua, vou andando e parando, coçando cabeça de um cachorro aqui, alisando os pelos nas costas de outro ali, esse é o jeito de me transportar para o céu dos cachorros e dar um abraço apertado, e mais beijos, beijos na alma da minha Menininha. 

 

Agora não poderia ter um cachorro, moro num apartamento pequeno. Mas tenho vasos de flores, minha mulher gosta disso e temos uma floresta amazônica em nosso terracinho. Mas eu queria falar de uma batata-doce, em especial, que ela colocou num vasinho com água. A batata brotou em mil galhos e folhas, imediatamente.

 

De manhã vou direto olhar o crescimento exagerado de seus ramos. A batata-doce explodiu numa vegetação escandalosa, tivemos que apoiar seus galhos com estacas. E ela cada dia me diz alguma coisa nova.

 

Pois é, meu caso piorou. Antes eu falava com minha cachorra. Agora falo com minha batata. Seus caules finos descobriram a luz do sol, que vem pela janela, e então eles se voltam para fora. Só de sacanagem mudo a posição do vaso e os bracinhos da batata dão uma volta em sua ramagem, de madrugada, indo na direção da luz. Ela tem suas manhas, estratégias. Não admite que eu mexa em seu destino vegetal. Minha batata foi feita para chegar ao sol.

 

Os centímetros que ela cresce, quando não estou olhando, são a prova de que ela pode ir aonde desejar. E ir é mais importante do que chegar.

A batata-doce no vaso virou meu cachorro verde. Um exemplo para minha vida, meio complicada agora. Que nem o Brasil.

 

Mas eu estou disposto a seguir tentando mudar. A minha Menininha me ensinou Amor. A minha batata-doce, a pertinácia, a certeza teimosa de que o sol vai aparecer de novo, amanhã cedo.

 

Para mim, hoje, isso é o bastante. Bom dia. 

 

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