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Re-União 2017

Épater le bourgeois

October 25, 2017

Para quem não lembra da expressão, bem anos 60-70, ela queria significar “chocar o burguês”. Espantá-lo. Surpreendê-lo. No mundo das artes, chocar o burguês era deslocá-lo de sua segurança, das suas ideias preconcebidas.

 

Foi assim que as artes foram quebrando convenções e abrindo um novo leque de opções na maneira de “ver” o mundo. 

 

Lembro quando ouvi rap pela primeira vez. Foi numa loja de discos, em Nova Iorque.

 

Eu comentei, desagradado, com o "afro-descendente” que estava me atendendo. E levei uma dura, de volta. Hoje o rap faz parte das coisas que eu gosto. O mundo mudou e eu mudei junto. 

 

Me aconteceu o mesmo com o Andy Warhol, que eu só conseguia ver como um marqueteiro oportunista  que fez litografias repetidas de uma foto famosa da Marilyn Monroe. E de uma lata de sopa Campbell’s. Mas ao entrar numa exposição sobre o trabalho dele, no MOMA, literalmente cai para trás. Fantástico, o sujeito. Outro tabu que dançou.

 

Podia ficar horas buscando nomes de artistas, pintores, escultores, escritores, músicos, tantos personagens que se arriscaram a tentar o novo, o inédito, aquilo que ninguém pensou. Esses personagens audazes levam o nome de vanguardistas. E eles vão descobrindo para os “burgueses”, nós, novos desdobramentos de sensibilidade.

 

Eu me considero um cara aberto. Mas tenho meus limites na apreciação da arte. Tem um fotógrafo americano, Robert Mapplethorpe, que conseguiu fazer minha boca torcer em desdém, a cada exposição dele. Na última que o vi, no Guggenheim, numa das suas fotos, ele se mostrava nu, de lado, com um chicote enterrado do rabo, parecendo um urubu depenado. Detestei, me descobri um burguês “quadrado”, também uma expressão 60-70. Aliás, ele (fotógrafo) morreu de aids.

 

Todo este papo para justificar minha absoluta idiossincrasia pelas imagens daquela malfadada exposição do Santander, em Porto Alegre. Me incomodou tudo. Os "doadores de orifício anal", que organizaram a mostra, classificaram aquilo de ideologia de gênero, tentando dar um brilho "muderno" às porcarias mostradas.

 

Mundo burro, o nosso. Vou só contar, melancolicamente, um post que vi, no Face. Mostrava  uma menina deitada, sugerindo que ela estava sendo fotografada de bruços. Outra menina meio debruçada por sobre ela. Uma garrafa de bebida, em primeiro plano. O texto dizia que adolescentes estavam agora “ingerindo” álcool pelo ânus e pela vagina. "Moda" lixo, coitadinhas.

 

O Bem contra o Mal, parece que essa é nossa missão. Ir contra as drogas, tentar moralizar a política, combater a corrupção, valorizar as boas iniciativas, aplaudir quem acredita na importância da família, coisas assim.

 

E seremos então, talvez, considerados burgueses atrasados, babacas. Mas vamos em boa companhia, uns ao lado de outros, os que pensam da mesma maneira.

 

Não estamos sozinhos.

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