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Re-União 2017

As vezes é melhor ser surdo...

November 11, 2017

Tomando o pior café-da-manhã no pior hotel no qual já fiquei em São Paulo, entra no salão um grupo de jovens perguntando pelo preço de um misto-quente e uma xícara de café para quem não era hóspede.

 

O garçom diz, eles reclamam do preço, mas contam algumas notas e conferem até moedas dos bolsos.

 

Jovem que é jovem está sempre na dureza. Decidem se sentar na mesa ao lado da minha. Duas garotas e três caras. As duas de franja, os três de barbinha hipster, todos tatuados e bonitinhos.

 

Na primeira batida de olho saquei: estudantes de comunicação.

 

Dois minutos ouvindo a conversa e saquei mais: blogueiros de música. Cinco minutos e saquei ainda mais: que às vezes é uma pena não ser surdo.

 

Parece que o Coldplay estava hospedado num hotel próximo e melhor, certamente tomando um café da manhã melhor também, e os cinco estavam agitados porque iriam participar de uma espécie de coletiva ou algo assim. Pelo menos foi o que deduzi. Porque o despreparo era tão grande que era dureza acreditar que alguém ali soubesse formular uma pergunta.

 

Não sou fã da banda, mas ninguém ali sabia quantos álbuns tinha lançado, assumiam que não tinham idéia de onde veio e para onde ia a turnê, erraram a pronúncia do nome do baixista – só sabiam que era gaaaaaa-tôôôôôô – e alguém soltou que o Chris Martin foi casado com a Drew Barrymore! (na verdade foi com a Gwyneth Paltrow, mas o moleque falou com tanta certeza, e o Martin também passou um rodo tão geral, que juro que fiquei na dúvida).

 

Uma das meninas então, de repente, disse que estava mesmo era ansiosa pelo show da PJ Harvey. Quase engasguei com o suco de laranja. Só de ouvir alguém com menos de 25 anos saber quem é PJ Harvey me deu esperanças de que a conversa iria subir de nível.

 

Mas durou pouco, claro. Um dos caras perguntou se alguém tinha ouvido a última música dela no Deezer. Ninguém. Nem esta, nem nenhuma.

Na verdade também não sabiam picas da PJ Harvey. Só sabiam o nome, que era ativista de alguma causa humanitária, e que era linnnnn-daaaaaa.

 

Foi quando me bateu uma preguiça imensa e me levantei.

 

Eu perdôo o deslumbramento, a falta de preparo, e até mesmo a ignorância juvenil. Afinal, também já fui jovem, deslumbrado, despreparado, e também sou ignorante em muita coisa. Mas não dá pra aceitar uma geração que tem wi-fi, e um computador portátil em mãos melhor do que qualquer outra já teve em outra época da história, e esta ainda ter preguiça de usar até mesmo um Google de forma decente.

 

Mas fazer o quê? Essa mesma geração acha Arctic Monkeys uma banda relevante. Juro que ouvi isso também.

 

Voltei para o meu quarto imaginando como seria a entrevista e com uma certa pena do pessoal do Coldplay.

 

Ainda que estivessem em um hotel melhor e tivessem tomado um café da manhã bem melhor do que o meu.

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