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Re-União 2017

Cegueira política.

November 19, 2017

 

 

 

Em 2012, Spike Lee, diretor de cinema norte americano, em visita ao Brasil para a filmagem de seu documentário, Go Brazil Go, declarou:
"Na primeira vez em que estive aqui, em 1987, fiquei chocado ao ver que na TV, em revistas, não havia negros.


(...) Melhorou um pouco. (...) Quem nunca veio ao Brasil e vê a TV brasileira via satélite vai pensar que todos os brasileiros são loiros de olhos azuis".

 

 

A declaração do cineasta, no momento em que no país o STF julgava a constitucionalidade das cotas raciais em universidades públicas, levantou na sociedade brasileira as discussões sobre o racismo.


A esse respeito, no mesmo ano, Márcia Pereira Leite, professora do Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais da Uerj, pesquisadora do CNPq e membro do Coletivo de Estudos sobre Violência e sociabilidade (Cevis/Uerj) publicou um estudo sobre o assunto no Le Monde, que cito aqui.


Os dados são de 2012, mas é de se crer que pouco mudou para melhor desde então, pelo contrário.
No estudo, a professora aborda a questão abandonando os esquemas interpretativos que entendem as desigualdades como produtos de ações dos indivíduos, fixando-se na interpretação que é conhecida como "racismo institucional", que acusa mecanismos de discriminação no sistema social que funcionam, até certo ponto, à revelia dos indivíduos.


O racismo, utilizado dessa forma como instrumento de poder, separa (para dominá-las) classes, raças, povos e etnias.
Seu desenvolvimento se deu com o genocídio colonizador, na era moderna.

Em síntese, o poder estatal, aplicado nesse caso, se exerce separando quem deve "viver e quem deve morrer".

No momento em que essa discussão acontecia, existiam protestos, por exemplo, de afrodescendentes contra a ausência de negros na Fashion Rio verão 2012/2013.


A constatação da matéria do Le Monde era a de que a discriminação racial não seria operada apenas no plano privado, mas sim pelo próprio Estado, numa espécie da faxina étnica.
Sustenta que as altas taxas de homicídio nos territórios de maioria negra, políticas de remoção de sua população e altos índices de encarceramento de negros pobres, além da precariedade de habitação, saúde e educação e do desrespeito a suas tradições culturais e religiosas não são apenas produtos da má administração do Estado, mas traduzem o racismo cultural que opera no Brasil.

O que passa bem longe da "integração cultural" divulgada pela mídia a respeito.


Os números (já em 2012) dizem muito:


No período de 2002 a 2008, segundo dados do Mapa da Violência 2011, o numero de vítimas de homicídio em brancos diminuíram 22,3%, ao passo que o numero de vítimas negras cresceram 20,2%.
O numero de homicídios de jovens era mais dramático: o de brancos havia caído para 30%, e o de jovens negros havia subido para 13%.
A diferença era enorme, portanto: de 43%.


Dados do Ministério da Saúde da época indicavam que 62% de mulheres brancas realizavam sete ou mais consultas de pré-natal, enquanto somente 37% de mulheres negras conseguiam fazer o mesmo, o que provavelmente explicaria os casos de hipertensão arterial durante a gravidez , que mataram mais mulheres negras no parto.


Além disso, os dados indicavam que o risco de uma criança negra morrer antes dos cinco anos de idade por causas infecciosas e parasitárias era 60% maior do que o risco que corria uma criança branca.

O risco de morte por desnutrição era 90% maior entre crianças negras.

 

Dados do Relatório Anual das Desigualdades Sociais mostraram que os negros, por motivos diversos, eram em 2012 60% daqueles que não conseguiam atendimento no SUS. Os maiores percentuais se referiam às mulheres negras.


No campo da Educação, a desigualdade era gritante: a probabilidade de um jovem branco, de 18 a 24 anos, frequentar uma instituição de ensino superior era 97,8% maior do que a de um jovem negro.

 

As políticas públicas, no campo da moradia (que tinha um déficit em 2012 de 5,5 milhões de unidades) jamais beneficiaram os territórios brasileiros de maioria negra, loteamentos, bairros pobres, periferias e favelas.
Pelo contrário: as cidades são reestruturadas para favorecer a especulação imobiliária ou sediar "grandes eventos" (mais tarde, como se viu em 2014, aconteceu na Copa do Mundo) empurrando essas populações para locais cada vez mais distantes, com estrutura cada vez mais precária, sem redes de sociabilidade, sem lugar na sociedade, sem direito à cidade.

 

Voltando a 2017, no momento em que escrevo vejo também que denúncias de racismo crescem 250% em apenas um ano no Rio Grande do Sul. E isso pode apenas significar uma fração do que realmente ocorre, porque muitos casos sequer são notificados.

Portanto, acredito que, se houveram mudanças neste quadro, de 2012 para cá, foram mesmo para pior.


Há uma enorme dificuldade de entendimento sobre o assunto daqueles que sobrepõe convicções políticas ou ativismo radical ao bom senso e à inteligência.

As declarações da atriz Taís Araújo, sob a ótica da realidade pura e simples, talvez assumam outra dimensão aos olhos dessas pessoas. Se trata da realidade, e ela, como mulher negra e mãe, foi mais do que coerente em sua palestra no TEDx.

 

Quando, sob influência de crença ou partidarismo, nos recusamos a considerar outras visões, ou a realidade mais óbvia, andamos pelo caminho do totalitarismo, da defesa feroz do que "só vale aquilo em que acredito".

 

Aqueles que ontem condenaram a atriz incorreram, fatalmente, no mesmo erro de que a acusam:
Fazem "mimimi", uma choradeira inútil pela realidade que, longe das ruas, não enxergam.

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