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Re-União 2017

A morada da elite stalinista ou a sala de espera do Gulag

November 29, 2017

 

 

O recém lançado The House of Government: A Saga of the Russian Revolution traz uma abordagem original sobre a experiência soviética. Estima-se que mais de 20 mil livros foram publicados sobre o assunto.

 

O autor Yuri Slezkine, professor de História Russa na Universidade da Califórnia, em Berkeley, sustenta o bolchevismo, e por extensão, o comunismo, como religião. Ou mais precisamente, como uma seita milenarista. A teoria marxista, desta vez, é associada a profecias apocalípticas.

 

O cenário é um complexo residencial de estilo construtivista soviético de 12 andares com 505 apartamentos, o maior da Europa. Foi construído em cima de um brejo drenado a beira do Rio Moscou e próximo ao Kremlin para os altos funcionários da tirania do Czar Vermelho Josef Stalin.

 

Oito famílias, residentes do condomínio imponente, são os protagonistas da obra que está entre um romance de Tolstoy e uma monumental e detalhada história da perversão moral, da cultura de sadismo, da crueldade assassina, enfim, do terror stalinista. O catapácio tem 1000 páginas.

 

A Casa do Governo era o melhor em termos de moradia que o regime soviético podia oferecer a sua elite, os privilegiados da nomenclatura.

Os amplos apartamentos de pé direito alto, previamente mobiliados, tinham telefone de graça e, o rigoroso inverno russo exigia, aquecimento central.

 

Os moradores contavam com um cinemas de 1500 lugares, um teatro de 1300 lugares, biblioteca, banco, supermercado com produtos alimentícios que a população faminta não tinha acesso, restaurante com serviço de entrega, lavanderia, playground, creche, escola para 588 alunos, centro médico, correio, salão de beleza, ginásio de esportes coberto, quadra de tênis, estande tiros, salas de jogos, pintura e música.

 

Menos iguais que os iguais, de 600 à 800 empregados dividiam as tarefas administrativas, a manutenção, intendência e os serviços domésticos.

 

Projetada pelo arquiteto judeu ucraniano Boris Iofan a Casa do Executivo Central e dos Comissários do Conselho do Povo, protegida por grades e guardas armados, era uma cidade auto-suficiente, recanto de confortos burgueses na parte mais nobre da capital da União Soviética das Republicas Soviéticas.

 

O lugar ficou conhecido também como “sala de espera do Gulag”.

Nos períodos de expurgos, depurações e deportações para capturar um figurão acusado de crime contra-revolucionário, seja na calada da noite ou a luz do dia, era missão fácil para os agentes do sinistro Comissariado do Povo para Assuntos Internos, KKVD na sigla em russo.

Bastava ir a Casa do Governo e bater na porta do apparatchik.

Foi o caso de um terço dos residentes — 344 deles foram executados e 500 sofreram algum tipo de emprisionamento ou sumiram do mapa.

 

Svetlana Alliluyeva, filha do Stalin, e Lavrenti Beria, chefão do KGB, moraram no complexo. O inquilino mais famoso foi Nikita Khrushchev que mais tarde, tornou secretário-geral do Partido Comunista, o primeiro-ministro da URSS. A absoluta maioria das famílias no reino da bandeira cor de sangue, no melhor dos casos, se amontoava em cômodos insalubres nas construções com cozinha e banheiro bem comunistas. Ou seja, coletivos.

 

New York Times listou o livro como um dos mais vendidos nos EUA. O New York Review of Books fez uma crítica muito elogiosa. Ainda não há tradução para o português. É preciso encomendar na Amazon.

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