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Re-União 2017

Suas últimas palavras.

December 3, 2017

 

Algumas poucas pessoas nesse mundo parecem que pairam acima da humanidade. Algumas. Eu tive o privilégio de conhecer um a, o Pacheco.

 

Pacheco era ateu mas tinha qualidades do melhor dos cristãos.
Generoso, amigo, homem de família. Tinha baixa tolerância com a burrice mas se safava dela com inteligência sarcástica. Seu humor era entendido por poucos.

Escrevia bem, mas só à mão. Caneta bic e papel.
Avesso às tecnologias, nunca usou uma máquina de escrever e jamais abriu um computador. Do papel tirava e no papel registrava suas idéias geniais. Pelo brilhantismo e respeito profissional que conquistou era sempre convidado para cargos de chefia. Nunca aceitou nenhum. Não gostava de receber ordens, odiava mandar e não participava de reuniões com clientes cujas inteligências não alcançavam a sua.
Propostas para trabalhar no exterior eram frequentes mas eram recusadas com ironia. “Não trabalho num país que não tem cachaça e chorinho.”

Aliás, sabia tudo sobre esses temas. Mesmo assim, sua teimosia era bem remunerada.
Apesar do alto salário guiava um fusca velho. Preferia gastar seu dinheiro com viagens, viagens estranhas para os normais. Enquanto os amigos iam para Paris ou Nova York, ele preferia Galápagos, Madagascar ou Malta. Tinha uma bela casa, um cão, um filho e uma mulher que foi única. Não tinha amantes, amava a esposa, companheira de todas as viagens, até a última.
Escreveu sua história sem papel, vivendo. Uma biografia vivida. Era visto como um homem de idéias estapafúrdias e inusitadas.

 

Seu filho, aos 19 anos, teve um problema renal sério.
Foi um rim do Pacheco que salvou sua vida. Passados uns meses Pacheco adoeceu. Não se sabe se o transplante teve participação nisso mas o fato é que contraiu uma doença raríssima. Difícil de diagnosticar e mais difícil ainda de tratar. Os médicos tomaram um baile da tal patologia.
Nunca chegaram a uma conclusão. Pacheco virou cobaia.
Depois de seis meses de remédios duros e terríveis efeitos colaterais, cansou de sofrer. Tomou uma decisão.

 

Reuniu a mulher e o filho no quarto do hospital.
- Meus caros, vivi bem, não posso reclamar. Li todos os livros que pude, vi todos os filmes que quis, tomei as melhores cachaças do país, fiz todas as viagens que me chamavam, tomei bons vinhos. Tenho uma casa, uma mulher adorável, um filho que amo e um cão companheiro que me faz mais
feliz do que mereço. Que mais poderia eu querer?
Já deu pra mim. Não quero terminar minha biografia com um capítulo infeliz, quero parar por aqui.


Os olhos da mulher e do filho esbugalharam.
- Vamos falar com médico e pedir para ele acabar com isso. Uma leve picada, a última. Quero que me ajudem a convence-lo, eu sei que não vai ser fácil.
Atônitos, não ousaram discutir muito o assunto. Conheciam a determinação das suas opiniões. O médico foi chamado e Pacheco expôs sua vontade. O jovem facultativo ficou mais branco que o próprio jaleco.
- Isso é eutanásia, seu Pacheco, é proibido por lei.
- Eu sei doutor, esqueça ao menos uma vez seu juramento a Hipócrates. É por uma boa causa. Minha mulher e meu filho aqui presentes são testemunhas de minha vontade e, se precisar, serão de sua defesa. Mas não será necessário, esse assunto ficará entre nós quatro apenas. Não vamos colocar sua carreira em risco. É uma questão humanitária. Detesto esse argumento mas é o que cabe aqui.
O médico teve calafrios, pediu uma semana para pensar.
Levou quatro. Depois de muito conversar com o Pacheco e os parentes acabou concordando.


Chegou o dia. Assistido pela esposa e o filho do paciente o jovem esculápio começou os preparativos para a viagem insólita. Coberto de dúvidas, tremia a ponto de verter lágrimas.

Pacheco, ao contrário, exibia um sorriso que andava ausente nos últimos meses. Passou o torniquete elástico no braço do paciente. Estava tão nervoso que furou o braço 4 ou 5 vezes e não achava a veia.

Pacheco não perdeu a chance de se despedir da vida com uma ironia.
- Doutor, o senhor cursou medicina onde?
Nas Universidades Tabajara?

 

Foram suas últimas palavras

 

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