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Re-União 2017

Capacho sindical

December 14, 2017

 

Escolhi o jornalismo por duas razões: queria, digamos, amplificar um pouco minha influência política e conquistar alguma segurança pra me defender da sanha da Ditadura Militar que então multiplicava seus tentáculos repressores por toda parte, sem fazer distinção de sexo, idade, credo, ideologia ou prática política....

        Vivíamos uma época de muito medo!

Creio que acertei na escolha! Meus escritos, sempre em contínua evolução tanto na forma quanto em conteúdo, venceram em pouco tempo os limites regionais para ganhar amplitude nacional... Passei menos de três anos como repórter do Diário do Grande ABC (vi de muito perto a ascensão de Lula) e pulei, já como chefe de Sucursal, para o Estadão e Jornal da Tarde - meu primeiro ícone em jornalismo...

A carteirinha de jornalista serviu-me de escudo muitas vezes, nenhuma delas tão decisiva quanto aquela em que eu e um amigo (Ariverson Feltrin, já falecido) fomos levados de taxi por um SS do Exército, do centro de São Paulo ao quartel da Rua Tutóia, memorável centro de tortura, onde fomos submetidos a interrogatório pesado e só liberados quando descobriram a identidade de jornalista que ambos guardávamos em meio aos documentos que já haviam confiscado... Queriam apenas saber onde o meu amigo havia conseguido a jaqueta de uso privativo do Exército que ele ostentava ao ser abordado no centro-velho de São Paulo...

O curioso é que eu já desdenhava da importância de um sindicato para defender os interesses de profissionais cuja ferramenta chama-se “massa encefálica”, ainda que muitos não a tivessem em volume minimamente razoável... Sempre encarei o jornalismo como uma função missionária e o jornalista como um profissional liberal com discernimento para negociar com os patrões suas condições de trabalho...

       
Com a morte de Herzog

Nem pensava em me sindicalizar quando mataram no Doi-Codi – em sessões de tortura – o jornalista da TV Cultura, Wladimir Herzog... Iria descobrir o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, então transformado numa trincheira de resistência à Ditadura pelo presidente, Audálio Dantas.


E lá estava eu no ato ecumênico em memória de Herzog, coroado pela missa celebrada por dom Evaristo Arns na Catedral da Praça da Sé; em mais alguns dias, o Doi-Codi iria matar sob tortura, outra vez em São Paulo, o operário Manoel Fiel Filho e a mobilização da sociedade paulista, a partir da reação dos jornalistas, forçou o governo do general Ernesto Geisel a substituir o comandante  do II Exército, Ednardo D’Ávila Mello... E São Paulo foi momentaneamente pacificada...

Descobriu-se, então, que a morte de Herzog e Fiel Filho era uma tentativa, nos porões da Ditadura, de reacender a lucrativa “indústria da repressão e da tortura”, revigorada pelo combate às organizações de esquerda que em 1975 já haviam sido desmanteladas... E o jornalista e o sindicato tiveram peso específico naquela que foi uma primeira batalha para conter os excessos do regime...

Sindicalizei-me e paguei religiosamente as mensalidades do sindicato, mesmo depois de me transferir para o Paraná onde permaneci por 16 anos... Em Curitiba, onde vivi de 1976 a 1993, tive, digamos, uma atividade sindical esdrúxula: lá, como funcionário da Sucursal do Estadão, eu seguia a orientação do Sindicato de São Paulo, mas por solidariedade participava das movimentações realizadas pelo sindicatos locais... Era como estar entre fogo cruzado e, pelo que me recordo, nenhum sindicato, nem em São Paulo e nem no Paraná, obteve algum êxito mais substancial em campanhas salariais e outras do gênero... Dono de jornal sempre foi uma pessoa muito poderosa...

   
     Parei de pagar 

Não me lembro em que ano deixei de pagar o Sindicato... Sei dizer que ao retornar de Curitiba, em 1993, já havia me afastado completamente da vida sindical e voltava a desdenhar da importância do sindicato na vida profissional de um jornalista.

De 2003 a 2005 vivi os horrores da crise que, em 2009, iria tirar de circulação o jornal Gazeta Mercantil, onde fui diretor por seis anos... Em artigo recente, conto em detalhes como foi a desastrada  tentativa do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo de ajudar os funcionários da Gazeta que amargavam vários meses de total inadimplência salarial... Pode-se dizer que o Sindicato mais atrapalhou do que ajudou...

     
  Decepção ainda maior


Poucas profissões têm sofrido um impacto tão forte com as mudanças decretadas pela evolução das tecnologias de informação, quanto a do jornalista, transformado, de verdade, numa borboleta perdida na tempestade... E o Sindicato poderia neste momento ser um “think-tank”, ou seja, um centro de conhecimento e um farol a iluminar os caminhos do presente e do futuro...

 
      Só que não!
       
O Sindicato que já foi de Audálio Dantas, depois de submergir nas trevas e nela permanecer por muitos anos, resolve transformar-se numa espécie de capacho do PT e do Lula!

Isto é uma vergonha, diria Bóris Casoy, aquele mesmo jornalista que em maio de 1979 impediu que a redação da Folha de São Paulo parasse em razão de uma greve que fora decretada pela primeira influência nefasta da CUT, à qual o Sindicato está até hoje filiado..
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