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Re-União 2017

Se um dia eu morrer...

December 16, 2017

 

Velho lamentando o passado parece uma fusqueta enferrujada. Como se naquelas épocas tudo fosse que nem no filme Embalos de Sábado à Noite, com trilha dos Bee Gees e o John Travolta dançando.

A idade funciona igual a um photoshop, apagando as lembranças que não queremos mais lembrar. 

 

Quando me vejo nas fotos do passado, todo bonitão,  penso meio melancólico: poxa, como meus cabelos eram pretos! Mas decido que não vou tingi-los, e ficar com a cara da minha tia, que os tinha de cor violeta. Ficar velho é o karma de estar vivo, pessoal! 

 

Lembro que muita gente conhecida já bateu com as botas. Bater as botas, era uma expressão da época em que eu era moço. Bem, moço também é palavra datada. E “datada”, também não se fala mais.

Meu vocabulário ficou velho junto comigo, que nem ombreira de paletó.

Mas eu me recuso a dizer coisas como “Fulano lacrou.”

 

Outro dia, alguém disse que para entender meus posts, precisava ter junto um dicionário. Sério? Não quero ficar pedante. Mas me pego muitas vezes citando filmes antigos, o que costuma provocar olhos arregalados com um sinal de interrogação. É chato ter que explicar artistas quando eles ainda apareciam em preto-e-branco. Ou os filmes da Metro, em technicolor. E as velhas músicas, então? Again...it couldn't happen again...this is... etc.

 

Para fugir da obsolescência quando perguntado por sua idade o sujeito responde com um sorriso de desculpas sussurrando  “seis, ponto dois”, ou “sete, ponto sete”. O mais triste de ficar velho é disfarçar a decadência com um ar de soturna sobriedade. O cara tenta virar um Sócrates de sabedoria. O maior medo dos “distintos” é parecer ridículo. Mas velho fica ridículo mesmo! Então eu dou risada de mim antes que os outros o façam.

 

Eu já pensei em fazer uma plástica no rosto. Desisti, ao perceber a futilidade desse projeto tolo. Avaliei que não queria virar uma múmia paralítica, igual a algumas que conheço. Me assumi, velho. Mas não totalmente velho-velho. 

 

Resolvi aprender a mexer no Facebook, pescando de tarrafa para encontrar outros que nem eu. Aqueles que não ficam falando das glórias do passado. Foi uma epifania. E garrei a escrever o que me dava na cabeça. E agora estou gravando uns programas para tv junto com uma menina ótima, a Madelaine Lacsko, fazendo o politicamente incorreto... Já no primeiro, alguém comentou que nosso programa era “o mais punk” por aí. Graaaaaande!

 

No Face, voltando para falar de algo que ia esquecendo: tem aqui uma geração de pessoas, especialmente mulheres, que eu classifico de “premium”. Umas senhoras porreta, ativistas políticas, inteligentes, interessadas, intelectual e emocionalmente abertas, sem frescura. Ando me espojando em suas delícias datilografadas, desculpe, tecladas. Se o Brasil vai mudar para melhor, em parte será por culpa delas. 

 

Vi na Veja da semana passada que no Brasil só tem 2% de pessoas na faixa de 80 anos. Sacrossanta Virgem! Estou derrapando para fora da pista. E minha biografia, como fica? Não fica. Eu queria ser lembrado de que jeito? Ora, me esqueçam. Estou na guerra, como sempre estive.

E é engraçado viver assim.

 

*Pintura de Ramon Brandão

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