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Re-União 2017

A arte da guerra

December 18, 2017

 

Conheci um  ardente esquerdista  que nos anos 70 vivia no Largo do Arouche. Ele sonhava em ser um temido sabotador do regime militar e com um pouco de sorte,  fugir para a França, onde poderia passar as tardes jogando xadrez no clube do Partido Comunista Francês. 

 

Após diversas anarquias no centro de São Paulo, começou a levantar suspeita pelo DOI-CODI e temendo a prisão, se mudou para Santos, levando um pacote de Pasquins, um velho e fedorento cachimbo inglês  e a cabeça repleta de planos para serem executados no "momento propício".

Com a ajuda de amigos sindicalistas do porto, conseguiu alugar uma pequena casa no morro e no dia seguinte descobriu que nas redondezas havia um quartel do Exército Brasileiro, que rapidamente virou alvo de um elaborado plano de sabotagem, afinal ele estava infiltrado no flanco do inimigo. A chance de se tornar imortal enfim batia à porta.

 

Após muito pensar, bolou um plano rocambolesco: comprou um casal de papagaios e com determinação  ensinou as aves a repetir as frases “Viva Fidel”, “Viva Lamarca” e “Avante la Revolución”. Assim que o casal de papagaios se tornou bem doutrinado e com boa dicção, fê-los voar sobre o quartel do Exército. O plano era perfeito, jamais alguém teria pensado nisso.

 

Por diversas semanas, os papagaios sobrevoaram a caserna gritando a plenos pulmões sua prosopopéia comunista, fato que causou indignação profunda nos militares.  A  noticia de tão engenhosa proeza espalhou-se entre os demais quartéis do Brasil, fermentado um vasto jargão de piadas. Até o alto comando tomou conhecimento e prometeu capturar o elemento subversivo. 

 

O plano foi um sucesso, a tropa estava enfim, psicologicamente afetada. Mas certa noite, enquanto brindava o sucesso, com uma dose de conhaque sentado na cozinha de seu "aparelho", viu com nojo uma grande barata entrando por baixo da porta. Ágil como um guerrilheiro urbano,  investiu sobre ela,  que foi ferida de morte  pelo bico de seu Vulcabrás surrado, ícone do proletário urbano.

Ao ver a barata tombada, seu coração parou.  Ele se aproximou, pegou-a com asco pelas antenas, olhou suas asas e nelas estava escrito com tinta branca: “PC do B”.  A barata estava perdida e tinha desviado do foco de sua missão: entrar no quartel do Exército!

 

Inconformado, o lobo solitário da revolução acendeu o cachimbo e após muito refletir,  concluiu decepcionado que a única resposta plausível para isso, seria que um segundo revolucionário vivia na vizinhança e por uma daquelas ironias do destino, tivera idéia semelhante. Foi um golpe avassalador em seus projetos. Seu ego cambaleou.

 

Um par de semanas depois, nosso revolucionário explodiu de indignação ao ler no jornal que um professor universitário já idoso, fora preso próximo ao quartel de Santos, com uma caixa cheia de baratas e ratos pintados com símbolos comunistas. 

O velho foi julgado por atividade terrorista, tendo sido também creditado à ele a “operação papagaio’.  Tempos depois exilou-se na Europa onde foi recebido com toda a pompa e contratado para lecionar ciência política na Sorbonne. 

 

A notícia se alastrou no meio esquerdista, o velho professor comunista se tornou um herói entre os membros das diversas facções revolucionárias e teve sua foto colocada nos centros acadêmicos, virou tema de poesias, teses acadêmicas, letra de música e anos depois batizaram um teatro com seu nome. Sua brilhante estratégia até hoje é contada com glamour nos botecos do esquerdismo paulista.

 

E assim tomado de profunda depressão e cheio de contas para pagar, nosso romântico subversivo libertou na mata o casal de papagaios e na bolsa capanga de lona, carregou de volta para São Paulo, o seu cachimbo com cheiro de berinjela. No coração, um desalento profundo e a vontade de ouvir repetidamente Gení, do Chico Buarque.  O pacote de Pasquins ele queimou.

 

Anos se passaram, o cabelo caiu, a barba cresceu e hoje, perdido nas redes sociais, na solidão da noite paulistana ele toma uns conhaques e entre uma cachimbada e outra, se lembra do passado, e grita com o punho fechado no ar:  “o partido deixou de conhecer um grande líder e tudo por causa de uma maldita barata, mas Viva Fidel, Viva Lamarca, Avante la Revolución.”

 

Já não fazem mais revolucionários como antigamente. 

 

“Se você estiver longe do inimigo, faça-o acreditar que você está perto.”

A arte da Guerra.

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