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Re-União 2017

Arrogância e involução

December 22, 2017

 

Lendo algumas análises sobre o clipe da Anitta, não encontrei UMA que não repetisse os termos "jogada inteligente", "marketing genial", "carreira internacional", "Billboard", "Top 20 Spotify" ou "milhões no YouTube".

 

Podem reparar: a maioria dos textos não fala da música, apenas de Anitta e seu sucesso. Isto ocorre porque todo o debate sobre a cantora tem pouquíssimo a ver com o que ela canta. A discussão é, mais uma vez, sobre poder.

 

O funk carioca hoje é menos um estilo musical e mais uma estratégia de ocupação de espaços. Daí porque se elogia mais o marketing do que o ritmo, celebra-se mais o clipe do que a música, mais a celulite do que a dança, mais o número de visualizações do que a sua qualidade.

 

Não se trata de uma crítica, mas de uma constatação. Para quem quiser entender melhor o que digo, há um divertido livro novo na praça que explica bem algumas questões do nosso tempo: "A sutil arte de ligar o foda-se". Recomendo mesmo. O livro de Mark Manson me surpreendeu positivamente, mesmo eu odiando literatura de autoajuda, se é que dá para classificá-lo assim. No capítulo "Você não é especial" o autor faz um balanço interessante sobre como a cultura da valorização da autoestima iniciada nos anos sessenta destruiu a capacidade de discernimento das gerações seguintes que cresceu acreditando que todos somos especiais, todos temos nossos talentos, todos temos vocação para o sucesso, o que não passa de uma enorme mentira, claro.

 

Mas tal pensamento resultou num mundo de millenials que julgam não precisar saber fazer alguma coisa, ou mostrar competência em qualquer área, porque se bastam apenas ao parecer e fingir que fazem.

 

Nunca antes na história humana tantos fizeram tanto sucesso, por tanto tempo, e fazendo tão pouco. O livro traz muitos questionamentos interessantes, um deles: se uma pessoa medíocre se sente a "FODA" o tempo inteiro, mesmo que não tenha talento e sua vida esteja chafurdando na merda, como isso pode ser um método de aferição válido para decretar que sua vida é bem-sucedida e feliz? O livro traz a resposta dando o nome certo para isso: arrogância.

 

Gente arrogante exala autoconfiança em níveis irreais, pois autoconfiança infundada é contagiante e vicia. Não dá para negar que o funk carioca, hoje, está mais autoconfiante e arrogante do que nunca, e isso até faz parte do seu charme "marrento". A questão é quando a arrogância toma rumos de autoengano alienante e quase doentio. De certa forma pularam direto do "sou feia, mas tô na moda" para o "tô na moda, então sou linda". Houve uma clara involução aí, percebam. Porque uma coisa é aceitar os seus defeitos e superá-los com o sucesso. Outra, bem diferente, é negá-los por conta do sucesso e da aprovação alheia. Pois quando tudo isso acabar, porque toda moda passa, o que sobrará? Daí porque hoje tanto fãs, quanto expoentes do movimento, falam tanto em sucesso, em marketing, em estratégia, e também porque se doem tanto quando recebem qualquer crítica: insegurança pura.

 

A todo momento somos lembrados que o funk carioca hoje é onipresente, bate recordes, é tocado na Europa e nos Estados Unidos, faz e acontece, "tá tudo dominado", urrú, mas ai de quem fizer uma crítica que seja.

No mesmo instante o crítico se torna preconceituoso, elitista, racista, homofóbico, buá.

 

Enfim, alguém poderá dizer que o "discurso da degenerescência" é antigo, coisa de coroa, e que um dia disseram a mesma coisa da cultura do blues, do jazz, do samba, do rock, da música eletrônica, do hip-hop, e também terá razão. Concordo. Mas acho, de verdade, que chegamos a um limite.

 

Fico mais tranquilo pensando assim. Afinal de contas, também sou filho de Deus e tenho o direito de me auto enganar um pouco.

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