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Re-União 2017

Algo está fora do lugar

January 17, 2018

 

Vendo se acirrarem os ataques a ex-"aliados" para todo lado, gente que outrora se considerava estar na mesma trincheira, algo me parece tremendamente fora do lugar. 

 

Sem entrar nos méritos desses ataques, que podem ser feitos por divergência de opiniões pontuais ou por mudança de postura, mas que de qualquer maneira não cabem nem são necessários aqui, quase todos são motivados por sentimentos que vão do horror à “traição” pontual por melindres ou simples discordâncias à repulsa pela “traição” ampla, geral e irrestrita, considerando que o alvo tenha mudado totalmente de lado (ou que até ontem este fingia estar do “nosso” lado), e isso não se faz.

Ora, por menos que se goste dos que têm sido constantemente atacados, existe gente muitíssimo pior do que Alexandre Borges, Luiz Philippe de Orleans e Bragança, Carlos Andreazza e William Waak (e esses eu só incluí aqui porque foram atacados, já que deles é óbvio que qualquer um que entenda minimamente o momento histórico que estamos atravessando, dentre esses eu mesmo, gosta, procura entender o que estão fazendo, sabe de sua importância e isso é problema de cada um), Rachel Sheherazade, Reinaldo Azevedo, Marco Antonio Villa, Rodrigo Constantino etc. 

 

O que se fez com Reinaldo Azevedo foi sintomático e, mais recentemente, com William Waak, ainda que não pelos mesmos motivos, piorou a sensação de patrulhamento ideológico com todas as letras, e repito que não estou interessado nos méritos dos casos, apenas em suas motivações e possíveis consequências. E ideologia, como ensinou o velho mestre Russell Kirk, não combina muito bem com conservadorismo. Já o que se tem feito com Rachel Sheherazade ultrapassou qualquer medida da mais pura má educação. E o que dizer dos ataques ao Olavo de Carvalho, goste-se dele ou não, o maior semeador do nosso tempo?

 

Daí deduzo que, se existe à esquerda do espectro político o famoso isentão (“não sou petista, mas...”), que tem posições políticas que invariavelmente batem com a agenda esquerdista, também existe um ser paralelo no ambiente, digamos, direitista. Ele apareceu recentemente, e de alguns meses para cá ganhou força. É o paralelo do isentão com sinal trocado, um personagem que se proclama o único realmente certo na direção do conservadorismo, alguém que, por falta de melhor adjetivo, podemos chamar de truezão. É um sujeito que é “true” e 100% ortodoxo naquilo que pensa e faz e não abre concessões a ninguém que pense diferentemente dele ou de seu grupo, ainda que caminhem para o mesmo lado daqueles a quem ataca. 

 

O truezão é um ser polimorfo e um tipo não é necessariamente amigo de outro: o tipo A ataca esses que citei acima, o tipo B ataca conservadores como Olavo de Carvalho ou outros pouco mais ou pouco menos identificados com algo que se possa chamar de “conservadorismo”, “direita”, whatever, como o Bolsonaro. O tipo A considera-se o portador da Verdade e o tipo B quer ver o circo pegar fogo porque ele é incapaz de entender que essa direita, mesmo dividida entre reais conservadores – que lhe são antipáticos – e outra um tanto primitiva, mas que ele considera tão perniciosa quanto a esquerda, é o que temos para o momento, e não pode apresentar nada que seja um pouco melhor, então espinafra a todos por igual.

 

Às vezes aparece um terceiro tipo, que ataca a tudo e a todos simplesmente porque ele é apenas um anti-petista e por isso de alguma maneira se considera um conservador, um guerreiro do Bem, sem saber que anti-petismo e conservadorismo não são sinônimos. Nesse terceiro tipo amontoam-se todas as outras correntes de truezões. 

 

Quer me parecer que esse pessoal truezão ainda não entendeu muita coisa da guerra cultural em curso e acha que esse purismo vai conduzir a algo bom. Eles não tratam seus desafetos como divergentes que são, eles os tratam como inimigos. E consequentemente, se esquecendo que nossos reais inimigos é que estão rindo com isso, dispara fogo amigo para todo lado. É lamentável, mas é coisa que, creio eu, seja característica de uma direita nascente e ainda um tanto imatura. Ortega y Gasset, em A rebelião das massas, diz claramente que é isso que fazem as nações jovens: brincam.

 

Mas não me ponho aqui a exercer o mesmo papel; apenas observo que permitindo esse relativismo moral, intolerante e de comportamento semelhante ao de petistas e outros socialistas, que prendem o caboclo em uma camisa-de-força ideológica – e ideologia é coisa deles, lembram?, teremos três consequências, a mim bastante evidentes: 1) isso divide e posteriormente fragmenta o lado direito do espectro político, exatamente da mesma maneira que faz a esquerda em nível social (e em escala industrial), 2) para as futuras eleições, ajuda a fortalecer algum candidato da esquerda (Marina, Ciro ou qualquer outro poste do lula agradecem) e 3) deixa claro que dos patrulheiros ninguém passa: amanhã seremos nós os patrulhados. 

 

Ou seja, trata-se de uma briga inútil, quando não contraproducente, um tanto aparentada com a briga entre católicos e protestantes para ver quem é mais cristão: quem ri e se aproveita disso é só o diabo. 

 

Marcio Scansani editor da Armada

 

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