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Re-União 2017

Metade da terra

February 9, 2018

 

Metade fica no escuro. A outra metade, se vista de uma estação orbital, fica rebrilhando ao sol. Mas nem sempre o globo terrestre se comporta assim. Em certas épocas, a terra fica toda embrulhada na Grande Noite, que é quando ela se envolve numa única escuridão. 
Olhada de longe, não existe quase luz nesse pretume, a não ser a irradiada por metrópoles gigantescas, habitadas por bilhões de pessoas. Essas cidades, vistas lá do alto, parecem montinhos de fagulhas de fogo, tremelicando. Não apagam totalmente, nunca. Você pode virar a cabeça 360º, arrodeando em torno de si mesmo e olhando. E constatará que essa densa escuridão pontilhadadinha é igual em todas as latitudes e longitudes do mundo. 


A Grande Noite não está descrita nos livros de geografia. 
Qualquer pessoa normal sabe que ela não existe de verdade. 
É só uma invenção, uma irrealidade que acontece dentro da cabeça de certas pessoas fracas de espírito. 
Que são como crianças com medo do escuro, vendo e ouvindo coisas.

Eu, sou uma dessas pessoas. Me assusta o que não consigo ver, o que não posso entender. Para fugir dessa escuridão, indo em direção à Luz, corro desembestado pelos continentes, pulando rios, percorrendo desertos e também nadando com todas as minhas forças por oceanos, vou indo.

Não estou sozinho nesse triatlo. Vamos em pequenos grupos e às vezes, exangues, paramos para esquadrinhar de novo os céus, buscando uma réstia prateada que porventura apareça no firmamento. E ela aparece, quase que sempre. 
É um reflexo quase lunar, que permanece curvado no horizonte, rebrilhando como uma lâmina de Madagascar. Batizamos aquela borda iluminada de Terra Minguante, pois ela segue fininha pelas beiradas do mundo. É um Sinal. Um imã que atrai todos os que se sentem apertados nas escuridões da vida, acuados e subjugados até onde não dá mais para recuar. 
Mas têm-se que correr depressa para chegar lá, nadar depressa, porque a qualquer momento a iluminação desaparecente pode acabar. Estou cabeceando de cansaço, tentando distinguir qualquer resto da Terra Minguante, enquanto converso com a mulher que janta comigo. 
Minhas pálpebras tremem levemente no esforço de concentrar atenção.

O restaurante está cheio, as luzes são calculadas para você se sentir bem, os garçons são prestativos, navegando pressurosamente suas travessas por entre as mesas.
Ela, sentada na minha frente, me olha, curiosa. Levanta os talheres no ar, como um maestro regendo com duas batutas e pergunta, direta “Você está triste?” Eu devia estar, e muito. Apenas não sabia o que responder. 
Mas falei “Estou. E este é o último jantar que vamos ter em nossa vida”. Notei os talheres dela voltando vagarosamente a se depositar ao lado dos pratos. Olhares grandes. 
Insisti, sem ânimo “Acabou, acabou. Não vou explicar, não quero dar explicações, acabou.” 
Ela, fúria sob controle “Você sabe exatamente a razão de termos acabado, não? Você sabe.” Eu não sabia, só sabia que não queria perder aquele restinho de luz prateada, já quase finita. Consternação.

 Mas nos últimos dias, tudo estava assim, em voz baixa. Nossa intimidade antiga saia fingida, as risadas tinham sempre um ahh a mais, o sacolejo sincopado das gargalhadas soava falso. Pegávamos na mão um do outro, andando pelas ruas, passeando por Lisboa, e elas ficavam transformadas em hidrantes quebrados, humidificando suor exagerado na palma das mãos. Disfarçadamente limpávamos na roupa, preferindo carregar uma detestável sacola a nos submeter àquela forçação de mãos dadas. 
E o nosso amor, e o nosso amor? Tanta gente na rua passando por nós, alegre, as vitrines oferecidas com tanta coisa bonita e maravilhosamente inútil. Tudo chato, eu propositalmente desmemoriado. Uma vez, anos atrás, alguém pediu o nome de minha mãe para botar num documento. Eu forcejei e não consegui lembrar, vergonha, naquele dia eu estava lerdo como hoje, sem sintonia fina. Minha mãe, como ela se chamava mesmo? Depois daquele jantar em que deixamos quase tudo nas travessas, o garçom perguntou se havia alguma coisa errada com a comida, com um jeito meio desculpativo. 
E nós respondemos joviais que não! não! absolutamente. 
Mas o vinho, bom vinho português, ficou na garrafa, nos copos. Se o garçom perguntasse meu nome, naquele momento, de repente, eu nem saberia o que dizer. De tanto que havia perdido identidade, de estar correndo para fora de mim mesmo. Ela me olhava, séria. 
Eu, olhos baixos, observando meus dedos polegares, que giravam em círculos curtinhos. Nesses momentos costuma-se, metaforicamente, jogar restos de comida, um no outro. Fúrias assassinas e um enorme sentimento de autopiedade assolam a alma, justificando violências. Refreiamo-nos porém desses exageros, civilizadamente, o que é mais uma prova do amor exaurido. 
A mulher à minha frente tinha uma amiga e as duas tinham combinado sair juntas, em viagem para fora de Paris, depois do trem do dia seguinte. 
A amiga me detestava, sentimento mútuo. Imaginei se elas não se amariam, secretamente. Imaginei-as lambendo uma à outra. Altas conversas à noite, as duas exangues de tanta esfregação. Podia ser. Ou podia ser que era um homem quem a aguardava em algum lugar. 
Ou podia ser nada, só paranóia minha, sentimentos persecutórios, eu encolhido, com medo, ajoelhado no escuro, a cabeça escondida debaixo dos braços apertados. Eu não tinha querido nem dar explicações nem ouvir explicações, não foi? Que importavam então os fatos reais? Interpretação dos fatos só fica interessante dependendo de onde você esteja com a cabeça. Ciúme? Do que? Se nosso caso se encontrava morto, bem ali na frente até do garçom, à quem pedi para retirar o cadáver esticado de cima da mesa? 
Todos já sabiam, em nosso universo dividido de lealdades, os amigos dela, os meus, todos torciam por um rompimento rápido, de guilhotina, do que havia sobrado de nosso amor. Indo de volta para casa, lado a lado, ela insistia em perguntar, sem perceber que o minguante tinha-se já apagado. Agora eu perdia, de novo, energia. Precisava me preparar para a solidão, essa a prioridade. Tinha que sobreviver para enfrentar a tristeza de passar o próximo natal sozinho, fins de semana tediosos, filmes na TV à noite, grandes silêncios. 
As conversas vazias. E ler, ler variações de tudo que já li. 
Decidi ir seguindo assim, desse jeito mesmo, nas próximas semanas, esbarrando em outros desacompanhados, igualmente desistentes do consolo de estar em casal. Vivendo a rotina das pequenas coisas, mas querendo acreditar que todas as coisas são pequenas, afinal. 
Alguma mulher, outra, ou outra teria que aparecer em minha vida. Mas me enfadava tanto a tarefa de precisar, outra vez, me explicar, me traduzir. 
Melhor trancar a porta ao perceber alguém girando a chave, querendo me escarafunchar. Agora o céu está em cores revoluteantes, capricho de algum Deus impressionista. Mas está na astronomia o saber dos movimentos das estrelas e dos planetas.

Fala-se que a Grande Noite vai ficar de novo minguante. Pode ser. 

Se apenas eu conseguir esperar o suficiente.

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