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Re-União 2017

Emma,minha querida

February 12, 2018

 

Meu pai, era um simples contador num emprego menor, em Araraquara.  Ele tinha aprendido inglês, não sei como. Deve ter estudado, à noite. Se foi muito cedo, com 33 anos.

Eu não o conheci, verdadeiramente, vivíamos separados. Depois, eu já adolescente, revirando as suas tralhas, descobri um maço de cartas amarradas com uma fita vermelha. Esse era o seu segredo. 

 

Ele se correspondia com uma moça chamada Alice (élisse) que era enfermeira, e morava na América. As cartas  falavam de coisas de amizade, do cotidiano, onde se confessavam amorosamente, um com o outro. Um contador e uma enfermeira, com suas pequenas vidas guardadas em envelopes com endereços escritos em letra caprichada e selos vistosos. Me lembro, comovido, de um selo com a imagem da  Estátua da Liberdade, lindo e colorido.

 

Tinha vontade de ter uma amizade assim, com você, que mora na Venezuela. Como meu pai, queria te escrever cartas que começassem sempre assim: “Querida Emma. Espero que esta a encontre bem e em perfeita saúde. Comigo tudo ok, e você?...” 

Mas você, morando num país sacudido pela guerra civi, se debatendo contra um ditador sanguinário, teus amigos assassinados e com o povo morrendo de fome e doença...como poderíamos trocar palavras singelas e inocentes? 

 

Quando penso em você e na Venezuela conflagrada, respiro fundo, angustiado. Minha frustração é igual a de tantos brasileiros que queriam fazer alguma coisa para tirar teu país do sofrimento. Estamos sem forças, aqui no Brasil, vivendo no medo de nos tornar uma ditadura igual aquela que os venezuelanos enfrentam agora. 

 

Eu admiro teu ativismo político e humanitário, Emma. E choro junto as tuas lágrimas. Não seria demais dizer “eu te amo”. Porque só isso, o amor de dividir a vida com o outro e suas dores, é o que vale e consola, ainda que você esteja tão longe e sem te conhecer pessoalmente. Sinta-se beijada no rosto. Um dia, toda esta tragédia também vai acabar, nos encontraremos, apertando as mãos, antes do abraço afetuoso, dizendo “muito prazer”.

 

Teu amigo, Enio. 

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