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Re-União 2017

O vaso comunista do dinheiro

March 31, 2018

 

Um amigo que morou em Berlin, conheceu diversos alemães que viveram durante os tempos do comunismo, quando a Alemanha Oriental Socialista era chamada de DDR - República Democrática Alemã.

Ele ouviu me transmitiu muitas histórias estapafúrdias e uma  delas me chamou a atenção, pela analogia com os nossos dias atuais aqui na República Democrática da Corrupção.

 

Foi o caso de um alemão do lado capitalista, que um dia combinou com sua esposa para passar um sábado no lado socialista e para tal, trocou um punhado de dinheiro ocidental (marcos alemães), pelo desvalorizado ‘kapital’ circulante da DDR.

 

Como o dinheiro da DDR era muito desvalorizado, a operação de câmbio gerou um gordo  maço de cédulas. Assim como em todo regime vermelho, na Alemanha Comunista havia poucos comércios de rua e nosso amigo, que doravante vamos chamá-lo de Marx, gastou quase nada.

 

Lá não existiam shoppings e nem restaurantes chiques, apenas pequenas lojas controladas pelo Estado que vendiam bugigangas ultrapassadas e pífias, incapazes de interessar um alemão capitalista refinado.

 

Após um dia de tedioso perambular pelas ruas cinzentas da DDR e sob constante vigilância de agentes à paisana da Stazi (a polícia secreta alemã), resolveu voltar para o paraíso ocidental, mas como ainda portava grande quantidade de dinheiro oriental, pensou o que fazer com ele, pois o câmbio reverso era proibido em ambos os lados.

 

Já cansados, Marx e sua esposa sentaram em uma Praça da DDR para confabular um plano para por fim aquele incomodo maço de notas. Ele pensou, pensou e num átimo de esperteza, caminhou disfarçadamente até um vaso de plantas e fingindo amarrar o sapato, ergueu o ‘vaso estatal’ e colocou as cédulas sob ele, tendo o cuidado de deixar algumas para fora, de maneira que chamasse a atenção de algum pedestre que poderia pegá-lo e assim refestelar-se de alegria.

 

Marx e sua esposa retornaram para o lado ocidental e durante dias riram muito da engraçada proeza, que também foi motivo de gargalhadas nas reuniões com seus amigos. Mas a ironia não acabou por aí.

 

Três meses depois, Marx e esposa combinaram passar outro sábado no lado comunista. Era uma linda manhã, com um sol suave refletindo no bronze escurecido das estatuas de proletários alemães.

 

Resolveram em primeiro lugar, passar na praça na qual o dinheiro tinha sido camuflado sob o vaso. Após comprarem um pequeno saco de pipocas doces, sentaram no mesmo banco de outrora e estudaram com detalhes o ambiente para certificar que não havia agentes do governo.

 

Marx, com certo medo disfarçado,  foi até o vaso de plantas estatal que escondia o dinheiro e seu coração saltou pela boca: o dinheiro ainda estava lá, exatamente na mesma posição, só um pouco sujo e desgastado pelas chuvas. As cédulas deixadas intencionalmente para fora do vaso estavam intocadas. Ninguém tinha pegado nem mesmo uma única nota.

 

Sua cabeça rodopiou, pensou o que poderia ter dado errado. Sentiu-se fracassado em sua brincadeira sarcástica e chegou a cogitar que os carrancudos alemães orientais tiveram seu senso de humor confiscado pelo governo comunista. Aliás, senso de humor em países comunistas, gargalhadas e faces alegres são convites para uma detenção. Rir em público no comunismo é uma ofensa grave ao Estado.

 

Muitos anos se passaram, o Muro de Berlim caiu, a praça comunista foi reformada, o povo do lado oriental voltou a sorrir e o capitalismo triunfou  na antiga capital da DDR. E junto com o fim do regime vermelho, apareceu a explicação para o fato do dinheiro do vaso não ter sido pego pelos moradores: O MEDO.

 

As pessoas que passaram pela praça durante aquele tempo perceberam o dinheiro embaixo do vaso, mas foram incapazes de pegá-lo, porque algo assim, só poderia ser uma armadilha da temida STAZI  para capturar alemães da DDR que praticavam a ‘crimidéia’, ou seja, aqueles que eram comunistas só da boca pra fora mas por dentro odiavam terrivelmente o regime e tentavam sabotá-lo através de contatos proibidos com alemães do outro lado do muro.

 

As pessoas temiam ser capturadas em flagrante delito ao pegar o maço de notas, porque seriam acusadas de espionagem  para o ocidente e o dinheiro seria interpretado como um pagamento por  atividades subversivas, o que fatalmente renderia a pena por fuzilamento, sem falar nas centenas de horas de tortura e interrogatório desumano praticados nos porões do edifício da Stazi, que hoje se transformou em museu da repressão.

 

Em todo regime comunista, ter dinheiro é uma sentença de morte, visto que isso era indício que o cidadão trabalhava para o ocidente ou realizava atividade suspeita,  proibida pelo Estado.

 

Assim como no Brasil, ganhar dinheiro honestamente era um pecado mortal. Somente os altos figurões que compunham a NOMENKLATURA do poder podiam acumular riqueza, através da corrupção política.

 

Se você achou que essa história real tem alguma semelhança com o que vemos no Brasil, você está certo. Aqui somente os bandidos e políticos corruptos podem ter dinheiro. Quem trabalha duro, tem que dar  quase tudo que ganhou para o governo em forma de impostos absurdos, caso contrário, será capturado pela Receita Federal, o único órgão do mundo que investiga, julga e condena o cidadão sem direito à defesa e apelação na Justiça.

 

Essa história engraçada, mas com um fundo triste, mostra que já vivemos um comunismo disfarçado. No  vaso estatal  brasileiro o povo coloca o dinheiro e ele some imediatamente pelas mãos do governo.

 

Assim como na DDR, o medo virou  moeda circulante.

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