© Todos os direitos reservados

Re-União 2017

Não há maquiagem que resolva

April 2, 2018

O que mais me divertiu na reação ao "O Mecanismo" foi ver alguns petistas dizendo, em tom de ameaça, que também irão produzir um seriado que conte a versão deles dos fatos e que "ninguém vai poder reclamar".

Minha resposta a esses comentários foi sempre a mesma: "vai fundo, fera, dou toda força, de verdade". Porém, isso me fez atinar para algo. Lembrei que o petismo ficou quase quinze anos no poder. Ou seja, os artistas que tomam as dores do partido estiveram com todas as cartas nas mãos por um bom tempo. Por que então, até agora, ninguém produziu um filme, ou seriado, com o mesmo potencial de público e repercussão da obra do Padilha? Por exemplo: onde está o filme sobre o mensalão que defenda, sei lá, o lado de Dirceu ou Genoíno? Por que até agora não fizeram uma cinebiografia da Dilma? Por que o máximo de barulho que conseguiram fazer foi com um "Lula, o filho do Brasil" e olhe lá?

 

Notem bem: não estou falando de filminhos que dão cutucadinhas bobocas em leitores da Veja. Isso não cheira ou fede pouco. Estou falando de obras que tentem retratar a política atual sobre a visão de quem realmente acha que vivemos, por exemplo, sob um golpe. Onde estão? Ainda que estejam produzindo algo agora – juro que não sei de nada – por que a lentidão?

 

Para mim há pelo menos três grandes motivos para tamanha lacuna.

 

PRIMEIRO: realizar uma obra audiovisual de grande alcance dá trabalho. Acertar um conceito dramatúrgico com precisão é difícil, escrever um bom roteiro mais ainda, produzir e dirigir nem se fala. Sem contar que filmes e seriados demoram pra sair do papel e nem sempre funcionam.

Talvez o petismo tenha percebido que é mais prático, e mais barato, defender Dilma em textões gratuitos de Facebook, ou em colunas compradas do 247, do que produzir um longa sobre ela. No fundo meio que desistiram do audiovisual porque sabem que o público jamais daria um tostão pelo o que escrevem ou pensam. Daí porque nem tentam.

 

SEGUNDO: narrativas de internet não precisam fazer sentido, mas roteiros de filmes e seriados sim. Qualquer pesquisa para um roteiro, qualquer leitura mimimamente honesta, esbarraria numa realidade intransponível.

Daí o impasse. Não consigo imaginar nada mais trabalhoso, por exemplo, do que contar a história do impeachment de 2016 como se fosse um grande golpe. O processo todo foi claramente legítimo e legal, registrado quase minuto a minuto pela imprensa, então como fazer uma história de golpe sem... golpe? Se até mesmo as narrativas de internet, onde cabe de tudo, não conseguiram definir um vilão direito – uma hora foi Aécio, depois Cunha, depois Temer, depois o congresso, o senado, o STF, todo mundo junto, que nem em "Invasores de Corpos" – imaginem um roteiro que necessita de lógica dramática para existir e que não seja fantasia. Teorias conspiratórias estapafúrdias podem render em livros mal escritos, em conversas de bar, em textão de internet, numa matéria da Carta Capital, porém quando viram roteiros ou filmes, quando se tridimensionalizam, soam capengas, ficam ridículas. É preciso ter muita imaginação e competência para isso. Se eu fosse a esquerda brasileira chamaria um Oliver Stone ou um Michael Moore para a empreitada. Talvez esses caras conseguissem dar algum sentido à essa maçaroca toda. Repito: talvez.

 

E TERCEIRO: o espectador precisa amar ou gostar o mínimo de um personagem para se identificar e se condoer por ele. Alguém ainda consegue sentir isso por algum nome vivo da esquerda brasileira? Alguém se dói por Lula? Ou por Dilma? Ou Zé Dirceu? Alguém consegue imaginar um filme que retrate estes personagens como heróis ou mesmo como vítimas de um "grande mal maior"? Se o grande amor do público por Lula não conseguiu dar bilheteria para o seu filme, no auge do seu governo, alguém acha que um longa ou seriado que o defendesse HOJE daria público?

 

Pois é... pelo visto até agora, nem mesmo os artistas que apoiam o PT acreditam nisso. Nem eles percebem que não se movem porque não conseguem encontrar um ponta de fio nessa meada. Pode até surgir alguém com talento que consiga. Mas normalmente, nem sempre, talento vem acompanhado de lucidez e competência, e quem tiver hoje uma pequena dose dessas duas qualidades não embarcará num barco que todos já sabem de antemão furado. Há vezes em que a verdade é imponente demais para ser escamoteada pela ficção.

 

Quando a cara é feia demais, não há maquiagem que resolva.

Por isto é que a história da ascensão e queda do petismo até agora não rendeu, e dificilmente renderá, um bom filme, ou seriado, que defenda seu lado, seus heróis ou ideais. De fato, é difícil encontrar até mesmo um bom meme que preste. Eis um bom desafio.

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Posts Em Destaque

A Pandemia Covid-19 e a Nova Ordem Mundial

March 24, 2020

1/10
Please reload

Arquivo
Please reload

Siga
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square