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Re-União 2017

O judas do Brasil

April 7, 2018

Quando chegava o sábado de aleluia, a molecada da minha rua, em Araraquara, fazia um boneco de Judas. Uma calça velha enchida com palha, a cabeça, uma meia estufada com pano, a cara dele desenhada com batom, todo desengonçado.

Amarrávamos então aquele Judas num poste, batendo no traidor de Jesus com paus de vassoura, no meio de uma bruta gritaria. 

 

Depois tacávamos fogo. Era uma farra. E quando sobravam no chão uns restos, jogávamos os pedaços ainda em brasa, uns nos outros.  Mas parece que nunca nos vingávamos o suficiente daquele que ganhou 30 dinheiros para denunciar Jesus. Quando tudo acabava, chegado o fim da tarde, íamos cada um para sua casa, meio desapontados.

Nem mais falávamos sobre o assunto, no dia seguinte.

 

Igual como agora comigo. Depois de tanto me enfurecer  com o lula, de escrever por anos sobre esse personagem maldito, agora parece que não sobrou nada dele.

Tentei manter meus olhos abertos para ouvir o discurso derradeiro do Judas do Brasil em seu patíbulo na frente do Sindicato dos Metalúrgicos. Mas dormitei deitado no sofá. 

Meus olhos se fechavam, pesados. Nos intervalos de minha vigília, ouvia a voz do criminoso, gritando pedaços dos seus discursos roucos. 

 

Um mantra infinito e repetitivo de bullshit. Às vezes a massa burra urrava, disputando ombro a ombro 1cm de proximidade com seu Deus terraqueo. Mas também já se podiam perceber alguns dirceus,que faltaram com sua obrigação de bater palmas, no palco. Pedaços de silêncio dos que já começam a se afastar do Titanic naufragando.

 

De mim, eu esperava de mim mesmo um mínimo de euforia ao ver o lula quase caído, chutado de cana disfarçada em água. 

Mas foi igual quando eu ganhava de aniversário uma caixinha de papelão com um suspensório de borracha dentro. Então eu corria para meu quarto e quase chorava de frustração. Faltou um drama grego, uma dose de cicuta, um tiro de `38 getuliano no sonhado suicído do lula.

 

Mas o lula vai esperar por uma liminar esperta do Marco Aurélio de Mello, um recurso estrambótico de um Lewandovski, ou de um Toffoli.

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