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Re-União 2017

Ed Motta sempre teve razão

June 23, 2018

 

Não foi ofensa. Não foi humilhação. Não foi "objetificação da mulher".

Não foi agressão. Não foi "hostilização". Não foi "misoginia". Não houve "violência" de nenhum tipo.

Não foi algo que "clama por uma mudança urgente da cultura machista e patriarcalista da nossa sociedade" (trecho de uma nota da OAB-PE, mas que poderia ter saído do site Catraca Livre, lida com destaque no Jornal Nacional, durante uma longa reportagem sobre os fatos).

Francamente.

 

Aquilo foi humor chulo (que você tem todo direito de achar de péssimo gosto), rasteiro, de quinta série, de homarada sem coleira viajando sozinha por um país estrangeiro, em ambiente de futebol, com muito pouco a fazer entre um jogo e outro, além de beber e perambular pelas ruas, onde outros bandos, de outros tantos países, certamente também não se comportavam como príncipes.

 

A suprema estupidez: o exibicionismo de gravar e publicar em uma rede social, ignorando que, na outra ponta da história, a galera de sempre estaria pronta para capturar os fatos;e torcê-los, moldá-los, adaptá-los, espremê-los para que coubessem em uma embalagem propícia aos seus propósitos.

 

Eles fazem isso o tempo todo, em todo canto, em todos os aspectos da vida cotidiana; já sequestraram toda a cena cultural, o cinema, a música, as novelas; já se apossaram das relações de trabalho, do ambiente das empresas; já espicharam tentáculos no mundo político e jurídico e nas relações interpessoais, dentro e fora da internet.

Não desistem nunca e não conhecem limite.

 

O puritanismo asfixiante das neo carolas do Século 21 não poderia deixar de tentar se apoderar dos grandes eventos esportivos e essa não é a primeira vez em que isso acontece; porém, diferentemente de outras vezes, em que se concentraram em tecer teses sobre equiparação salarial entre atletas homens e mulheres ou em medir o nível de melanina das equipes, agora parecem determinadas a fiscalizar o comportamento dos torcedores, dentro e fora das arenas: é um tal de não pode gritar isso, não pode fazer aquilo, de pinçar um fato que poderia muito bem ser classificado como mera babaquice e insuflá-lo, alimentá-lo, vitaminá-lo até que a grande mídia se renda: e devem comemorar muitíssimo quando acontece.

 

E uma vez tendo acontecido, quando se torna verdade nas vozes dos mais respeitados âncoras e nas matérias dos melhores repórteres - cujos editores têm o cuidado de não veicular nenhuma entrevista que contenha opiniões discordantes - está pautado o pensamento nacional: até quem nem sabia dos fatos pipocados pelas redes sociais há vários dias passa a ter opinião e as senhorinhas de Facebook clicam impiedosamente no botão compartilhar dos grandes portais.

 

Mas as beatas dos novos tempos também sabem ignorar fatos quando, por puro pragmatismo, isso lhes convém.

Se um político de esquerda comete um ato racista, elas calam.

Nada ouvem de sexista nas letras das músicas de funk. Não enxergam nada de extraordinário nas patifarias repetidas de um famoso ator, caso o mesmo seja filiado a um determinado partido político. Adormecem todos os sentidos diante de episódios de verdadeiras agressões sexuais a mulheres europeias cometidas por imigrantes, ainda que tais fatos tenham ocorrido em um outro evento festivo de abrangência global, como um réveillon, por exemplo.

 

Mas nada como um dia após o outro para compreender como funciona o mecanismo.

 

Há alguns anos, o cantor Ed Motta esculachou um determinado perfil de público brasileiro que costumava comparecer a apresentações suas no exterior; segundo escreveu em sua página em uma rede social, uma “turma simplória”, composta por um “público de sertanejo, axé, pagode, que vem beber cerveja barata com camiseta apertada tipo jogador de futebol, com aquele relógio branco, e começa gritar nome de time”.

Motta ainda chamou pessoas que foram a seus shows no exterior de "indígenas" e "pedreiros brasileiros"; também falou que o Brasil é "país de merda" e "terra ignorante". E concluiu dizendo que brasileiros estão consumindo "soda cáustica sonora" e habituados a pular "igual bicho atrás de um trio elétrico".

 

Sim: ele estava descrevendo com exatidão os grupos brazucas que, nos últimos dias, cometeram molecagens pelas ruas de cidades russas, o mesmo exagero barulhento, o mesmo comportamento buliçoso, a mesma ausência de noção, o mesmo mau gosto, a mesma falta de educação e de civilidade.

 

Curioso lembrar que, à época, as milícias da lacrosfera subiram nas tamancas diante daquilo que consideraram extremamente ofensivo e absurda demonstração de elitismo; e, como agora, tanto berraram que conseguiram pautar a imprensa, o que foi o bastante para relegar o artista a um longo período de ostracismo: contratos rompidos, shows cancelados, mais nenhum convite para aparições na TV.

 

Apenas recentemente, não se sabe se por inteligência própria ou conselhos alheios, mas em ato obviamente calculado, Ed Motta fez as pazes com a mídia ao elogiar o travesti Pablo Vittar: imediatamente, editorias despacharam enxames de repórteres para entrevistá-lo e, poucos dias depois, lá estava ele no palco do Faustão; logo em seguida no Fantástico.

 

Óbvio que não se pode cobrar coerência de gente que se pauta, não por fatos, mas por uma agenda; contudo, no momento em que o grande fato nacional é a vergonheira protagonizada por brasileiros na Copa, é necessário admitir: o Ed Motta sempre teve razão.

 

Se vocês agora, só agora, estão realmente convencidos de que os brasileiros são os campeões mundiais em vexames no exterior, apliquem um mínimo de nexo em suas narrativas e libertem o Ed Motta!

Permitam, pelo menos, que ele pare de mentir sobre o Pablo Vittar.

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