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Re-União 2017

A bola e a política

June 30, 2018

Soldados fortemente armados barram a  multidão para evitar a invasão do Palácio do Planalto! Guerra civil?
Nada disso: são cenas gravadas pela antiga TV Tupi para mostrar a recepção do presidente Emílio Garrastazu Médici à seleção do Tri em julho de 1970, há quase 50 anos, portanto.  

Disponível no YouTube (reproduzido aqui), o vídeo deve produzir arrepios na esquerda até hoje. Havia na época uma recomendação, espalhada pelo boca a boca, para que todos boicotassem a Copa do Mundo, realizada no México, pois a Ditadura iria tirar proveito de uma possível vitória da Seleção Canarinho.

No vídeo, uma multidão de milhares de pessoas, ansiosas para ver os atletas, cerca o Palácio do Planalto ao som do hino da época – Pra frente Brasil!  Zagalo, o técnico do Tri, Jairzinho, Gerson, Tostão e Dario, etc desfilam em carro aberto, de terno e gravata, pela Esplanada dos Ministérios...Foi um dia de cenas dramáticas: pessoas desmaiam e são carregadas em macas, crianças choram desesperadas à procura dos pais e a multidão vai ao delírio ao avistar os heróis do Tri.

O encontro se dá logo depois dos cordões de isolamento, já no interior do Planalto...também de terno e gravata, sorridente, Médici abraça cada um dos jogadores e ao final, ao lado de Carlos Alberto Torres, ergue a Jules Rimet, a mesma taça que seria rapinada tempos depois, em dezembro de 1983 (afinal, o poder já havia sido devolvido aos civis, rsrsrs).

EU ERA DE ESQUERDA
Em 1970, eu tinha 23 anos de idade e era de esquerda; vi os jogos da Copa em casa com dois amigos que já eram muito mais de esquerda que eu – Milton Saldanha e Rubem Mauro Machado...

E comemoramos a vitória final, desbragadamente...

Engraçado, como é a história...Nesta Copa da Rússia, é a esquerda que recomenda comemorações efusivas dos jogos na esperança que isto distraia a população e haja mais tranquilidade nas operações indecentes em marcha, sejam para libertar o rei dos ladrões, sejam para boicotar a Lava Jato.

Tenho pra mim que essas preocupações sempre foram inócuas. Não consta que o regime militar tenha durado mais – ou menos – em função das comemorações ao Tri mundial.

A esquerda já se armava na época do Tri, chegando a partir para o terror e a guerrilha...Esperava jantar a Ditadura, mas foi almoçada por ela...

Quando, em 1974, Garrastazu Médici passou o Bastão a Ernesto Geisel, a esquerda já havia sido triturada impiedosamente....

EM CONEXÃO DIRETA
Apaixonado pelo futebol, Médici interferiu  até na escalação da seleção do Tri: quis impor ao técnico, o comunista João Saldanha, a convocação de Dario, centro-avante do Atlético Mineiro, mas recebeu um desaforo como resposta...”Eu não vou escalar o ministério dele e por que vou permitir que ele escale a minha seleção?”, teria comentado Saldanha....Foi, em seguida, substituído por Zagalo, que, como primeira providência, convocou o mineiro Dario.

Quem assistir ao vídeo da recepção que o governo de Garrastazu Médici ofereceu aos tricampeões perceberá que Pelé, o grande ídolo do Tri, não esteve presente....Mas isso não indica que Médici não tenha aproveitado de todos os dividendos de marketing que o tricampeonato poderia oferecer a seu governo...Ao contrário, Médici se aproveitou do evento até mais do que a esquerda imaginou que ele faria: Pelé foi recebido em Palácio antes da Copa, quando recebeu de Médici a Ordem de Rio Branco,  e depois dela, sempre com exclusividade...

Na segunda visita ao Planalto, já ostentando o título de Tricampeão, foi acompanhado pela taça Jules Rimet e ofereceu a Médici a oportunidade de levantá-la pela segunda vez (e João Santana, creio, sequer pensava em trabalhar com marketing político!)

Foi nessa ocasião que Edson Arantes Nascimento recebeu a missão de voltar ao México  quatro meses depois da conquista do tricampeonato com "a honrosa missão de representar o ilustre governo de Garrastazu Medici" na inauguração da Plaza Brasil, em Guadalajara, (entre os dias 2 a 5 de novembro de 1970). É o que mostra uma carta do próprio Pelé a Médici, parte do arquivo pessoal do ditador doada em 2004 ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) por seu filho, Roberto Médici. Para fazer a viagem, Pelé teve todas as suas despesas pagas pelo Itamarati e recebeu passaporte diplomático.

UM ENCONTRO EFÊMERO
Enfim, as copas mundiais representam desde 1962, de quatro em quatro anos, um raro encontro do povo brasileiro consigo mesmo – se a Seleção Canarinho vai bem na Copa, o país se enche de júbilo; se vai mal,  se enche de tristeza e frustração. Mas é tudo efêmero. Uma Copa do Mundo, tradicionalmente, acaba no domingo e na segunda-feira todos estarão no trabalho,  bem mais dispostos no caso das cinco conquistas mundiais.

Desta vez, a preocupação é com o STF; os mesmos ministros que soltaram Zé Dirceu pela segunda vez podem agora soltar Luiz Inácio aproveitando-se do fato de que a nação não terá outra preocupação que não sejam os jogos da Copa da Rússia. 

Confesso que não tenho grandes preocupações com isto, por duas razões: desavergonhados como Gilmar Mendes; Marco Aurélio; Dias Toffoli e Rodrigo Lewandowski mantêm o seu saco de maldade sempre aberto; são cínicos o suficiente para enfrentar olimpicamente o clamor e a revolta popular, dentro da Copa ou fora dela.

A segunda razão é que as redes sociais encontram-se  nesta Copa em pleno funcionamento, sendo possível a qualquer brasileiro de qualquer região do país, ver os jogos da Copa e permanecer na vigília, ou seja, ter um olho no gato e outro no peixe. 

Só um exemplo do poder de fogo das Redes Sociais: as denúncias sobre as altas manobras do STF que poderiam levar à libertação de Luiz Inácio, disparadas por Tereza Mainardi, pelo site a reunião.com, dia 26-06, ou seja, com a Copa da Rússia em andamento, tiveram em dois dias nada menos de 8.200 compartilhamentos – um alcance maior, portanto, que a soma da tiragem dos dois maiores jornais paulistas, Folha e Estado de São Paulo. 

A ideia de que os jogos da Copa possam desviar a atenção dos brasileiros nestes momentos cruciais da democracia tem servido, a meu ver, só para infestar as redes sociais de mau humor e pessimismo com o desempenho de uma das melhores seleções que este país já mandou para participar de um espetáculo que é visto por quase quatro bilhões de telespectadores e internautas.

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