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Re-União 2017

Classe média despencante

July 17, 2018

 

Cada um fala de suas próprias experiências. As minhas, sobre a classe média, estão presas por lembranças não muito claras. Meu avô veio da Itália e era um homem muito poderoso.Administrava a casa como um Mussolini. Na verdade era um pequeno empregado da Força e Luz, a empresa que esticava a rede elétrica pelo interior. Um dia ele teve um acesso e matou o irmão na empresa, a tiros. A empresa o degredou definitivamente para os confins e rebaixou seu salário, depois que a polícia decretou sua legítima defesa.

Até ali, nos considerávamos classe média. Depois caímos uns dois andares.

 

Os italianos eram mal vistos por causa do Eixo e meu nonno era fascista. Eu, pequeno já cantava a Facceta Nera e  andava marchando pela casa. Nada de pai nem mãe. Era um órfão que falava mal o português. Éramos pobres, agora. Eu acordava às 5 horas pra comprar pão preto, tempos de racionamento, era o pão de guerra. Minha avó recolhia verduras jogadas fora, na feira. Nossos valores eram os da sobrevivência. Havia muita humilhação no Grupo Escolar, por causa da minha origem, apesar de nascido brasileiro. 

 

Sempre sonhei  em retornar aos tempos que meu avô parecia importante.

A família batalhava e nos aguentávamos com um pouco de dignidade. Os trabalhos eram humildes  e meus tios sofriam em empregos temporários ou menores. Cresci pensando em ficar rico.

Voltamos à condição remediada quando conseguimos mudar pra São Paulo e comprar uma casa geminada . Até com  telefone e a geladeira Frigidaire usada. Aprendemos a usar  papel higiênico ao invés de jornal. Minhas tias já compravam Modess, ao invés de deixar toalhinhas amareladas no varal.

 

Eu naveguei por diversas classes sociais.

Tenho me socorrido dessas lembranças para entender onde erramos. Estávamos subindo na vida. Compramos um jipe velho. Íamos à feira e voltávamos pesados. Pegávamos um trem na estação e viajávamos fantasticamente para o Gonzaga, em Santos. Conheci o mar. Um quarto grande de pensão para toda família e bonde para chegar à praia. Maiô alugado de lã preta que juntava areia no cós, coçava. Mas tudo era muito fascinante, apesar do calor, dos mosquitos e da pele que desgrudava das costas (Óleo Dagele).  Me parecia uma boa vida. Viramos, à nosso ver, classe média.

 

Anos depois  entrei na Faculdade, trabalhei - e antes derrapei por muitas calçadas escorregadias. Mas se a família continuasse daquele jeito, ficaríamos importantes, ricos.

Não dávamos nenhuma importância à política: a macarronada de domingo era ótima. 

 

E começou nossa decadência, nós sem entender nada.

E a família se destruiu nessa roda gigante - ou trem fantasma, como queiram. A palavra corrupção ainda não era usada. Depois, muito usada. E hoje estamos de novo por baixo, as lojas fechando, o deficit do país crescendo, as economias sumiram. Tudo difícil, sem emprego. 

 

Somos típicas cigarras, as formigas são  petistas, elas e  outros partidos ainda metendo a mão. Será que foi isso que acabou conosco? 

Como era o bom tempo em que éramos classe média.

O Palestra era campeão. Estávamos decadentes, mas numa boa.

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