© Todos os direitos reservados

Re-União 2017

Uma foto,um tiro

July 19, 2018

Teve uma cena, para mim, que me chocou mais do que qualquer outra, sobre a 2a. Guerra. Um amontoado de pessoas de terno e gravata, cercadas por tropas nazistas, esperava de pé, quase em fila, disciplinadamente, o momento de levar um tiro na nuca e cair numa fossa larga, onde já esperavam centenas de mortos, ali jogados.

 

Uma floresta (Katin?) compunha o cenário, quase bucólico. Soldados, curiosos, fotografavam o acontecimento, que parecia banal. Alguns riam entre si. 

 

A foto mostrava um homem vestido formalmente,  que tentava descer pela beira de uma vala, desajeitadamente, os sapatos escorregando na escarpada de terra e os braços se agitando, abertos em cruz, na tentativa de equilibrar o corpo naquela situação desajeitada. Um soldado, alguns metros atrás, apontava cuidadosamente a cabeça dele com uma pistola. Podia-se ver que o tiro seria disparado justo naquele instante.

Me chamou atenção como o homem se esforçava para manter a dignidade enquanto sua execução estava prestes a acontecer.

 

A condição humana daquela vítima ficou guardada  em minha memória   para sempre. Por que motivo minha atenção ficou tão presa justo naquela cena? Eu, que tinha morado em Israel, num kibutz onde cada judeu tinha perdido a família no Holocausto?  E já tinha acumulado lembranças, leitura e conversas com tantos remanescentes das fábricas de mortos?


Acho que descobri a razão. Me veio agora a consciência de como o povo brasileiro é parecido com aquele homem. Também estamos esperando o tiro - mais preocupados com o jeito de como cairemos lá embaixo. Hipnotizados pela mecânica do nosso próprio assassinato, sem nenhum gesto de revolta. O soldado apertando o gatilho não nos provoca um gesto atrevido, sequer um movimento de defesa. Aceitamos a fatalidade como sendo um destino do qual não se pode escapar. 

 

A Venezuela nossa vizinha, tocada como gado no abatedouro pela violência narco-corrupto-comunista, não nos provoca qualquer espanto. Agora mesmo, ontem, antes- de-ontem, tropas do ditador nicaraguense mataram mais de 400 pessoas nas ruas. E nós, nada. Tudo parece um

filme em branco e preto, sendo exibido em câmara lenta, sem qualquer som.

 

Nós, brasileiros, merecemos um sacrifício igual, por nossa inapetência de reagir com hombridade, brio. Consentimos em ser passivos. Vamos nos acomodando, nossos pés escorregam, sem tentar escapar da bala que já vai estourando a nossa nuca.

Que pena. Que vergonha.

    Share on Facebook
    Share on Twitter
    Please reload

    Posts Em Destaque

    Um táxi chamado Brasil

    February 25, 2020

    1/10
    Please reload

    Arquivo
    Please reload

    Siga
    • Facebook Basic Square
    • Twitter Basic Square
    • Google+ Basic Square