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Re-União 2017

Histórias de hospital

September 7, 2018

Até meus, talvez, sessenta anos,  nunca tinha entrado num hospital, como paciente. À partir daí, choveu hospital em minha vida. Certa vez fui me consultar com o dr. Kalil, no Sírio. Tive que me plantar na sala de espera e estava tão cheio que li todas as revistas de turismo que estavam lá. Mas me enchi tanto com a demora que fui embora, sob protestos de minha mulher. Por insistência dela, seis meses depois voltei a aquela sala de espera. De novo a mesma demora e eu quis ir embora, de novo. Isso quase deu divórcio. 

 

Chegada minha vez, o dr.Kalil me fez um exame com lente de aumento e finalmente deu a notícia: eu estava bem. Aleluia. Mas me ocorreu contar à ele, já com a porta do consultório aberta, que estava sentindo uma dorzinha na virilha. Eu achava que era uma simples íngua. Expliquei  que não tinha dado importância àquilo, porque eu praticava karatê e algo sempre acabava doendo, por causa dos treinos. O dr. Kalil, ao ouvir isso, me fez voltar e examinou aquele carocinho irrelevante. Resumindo: acabei ficando no Sírio, direto. Exames confirmaram o diagnóstico : era câncer  No Hodgkins, ou seja um câncer linfático. 

 

Foram meses de tratamento. O time de oncologia do Sírio foi perfeito, sob os cuidados da dra. Yana Novis. Entrei na quimioterapia, naquela rotina pesada. Botaram um intracath dentro do peito e, cada aplicação de químio parecia que me matava um pouco. Mas o pior, além de perder uns 10kg, e ficar careca, era ter que assistir a Ana Maria Braga e seu maldito papagaio falante, na tv do quarto. Era sempre um campeonato entre os dois para ver quem falava mais besteira. Eu, assistindo aquela senhora botocada e fanha, me convencia que talvez valesse a pena bater com o rabo na cerca, e partir para o além. 

 

Mas a dra.Yana e o dr. Kalil, diariamente passavam pelo meu quarto, e me traziam alento e esperança, me fazendo sentir melhor. Certo dia, a Yana chamou minha mulher e avisou-a que a químio não estava mais dando resultado. Ou seja, eu ia morrer logo, eles achavam que eu não aguentaria continuar com aquele tratamento rigoroso. Bad news.  E então, entra na história minha amiga Anna Maria Sharp. Minha mulher,ela, mais o marido da Anna, o Billy, me levaram ao João de Deus, que me curou com uma sessão, lá em Abadiânia, Goiás. Uma cura absurda para qual ainda não descobri explicação. Aprendi, de volta à vida, algumas coisas. Uma delas é que  estava certo quem disse que existem mais coisas, entre o céu e a terra, do que pode conceber nossa vã filosofia. Sempre fui cético quanto a milagres espirituais. E nem vou comentar isso, agora. 

 

Outra: se não fosse o médico Kalil, eu estaria defunto agora. 

Ele descobriu o câncer, que estava escondido e ajudou a me tratar. Lhe sou profundamente grato. E a dra.Yana, que segurou minha  mão indo comigo pelos sofrimentos da químio. E todo o pessoal do Sírio, incluindo aí a dra. Mariana Serpa, que não podia ter sido mais atenciosa comigo. "A ala das baianas" (ambas vieram da Bahia) mais competentes que conheci. 

Por isso, quando eu vejo alguém dizer que o Kalil não devia ter tratado o lula, por ele ser petista, tenho que sair de perto para vomitar. Político também é gente, é paciente como qualquer outro que precisa de tratamento. E o médico não pode julgá-lo pelo que ele representa, como persona política. 

 

Mas no caso do João de Deus, não sei à quem possa agradecer. Não tenho bagagem espiritual nem conhecimento para entender que milagre aconteceu. Porque nunca tive fé. Daí que acho (acho...) que minha cura não foi um lance psico-somático. Qualquer dia eu conto o que o João revelou a mim, chamando todos os que o ajudam lá e “explicando” quem eu era e havia sido, em encarnações passadas, etc. e tal.

 

Pensando bem, acho que a equipe do Sírio me curou o corpo e a equipe do João... a alma. Estórias ou histórias, sei lá eu.

E minha mulher? Que falo dela? Nada, fico de joelhos e me calo, agradecido, o que todo bom marido deveria fazer, duas vezes ao dia.

 

*Retrato de Marco Angeli (eu ainda com a pulseira do hospital)

 

Escrevi essa crônica a pedido de muitos amigos que me perguntam o que aconteceu comigo quando tive câncer.

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