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Re-União 2017

É desde cedo que se torcem os ogurets

November 28, 2018

No começo dos anos 80 quando eu era moleque, estudei em colégio particular em SP onde alguns de meus professores eram comunistas enrustidos interessados em criar uma juventude Konsomol de periferia.

Sofri lavagem cerebral, intensa, mas sem sucesso. Como guerrilheiros, investiam sobre nós usando  técnicas ardilosas.

 

A aula subversiva era a de Artes, onde a professora comunista dizia “hoje vamos desenhar ferramentas de trabalho” e nos ensinava como traçar esboços de machados, foices e martelos e só por último nos revelava o alicate e a chave de fenda.

No outro dia houve um concurso para premiar o melhor desenho de ferramentas e o vencedor foi um colega, que esboçou um homem pobre e negro, de chapéu de palha, cortando cana com uma foice embaixo de intensa chuva, ele até chamou a obra de "a tristeza do proletário"; a professora vibrou.

 

Lembro-me que durante uma dessas aulas, fui proibido de escrever com letra cursiva, fato que futuramente descobri, ao estudar o gramscianismo, se tratar de uma técnica planejada para reduzir a criatividade e o processo cognitivo das crianças, pois a letra cursiva está relacionada com a linearidade do pensamento e de aspectos de inteligência emocional da personalidade em formação, da concatenação de idéias e da análise crítica, sendo tudo isso combatido pelo marxismo-leninismo.

A eliminação da minha bela e harmoniosa letra cursiva afetou profundamente minha grafia, promovendo um impacto tão grande, que agora depois de velho tive que fazer um curso de caligrafia, para não mais escrever na enfadonha letra de imprensa.

 

Confesso que como todo jovem rebelde eu estava engolindo a lorota comunista, o xampu russo lavava bem as cabeças inocentes. Para me consagrar um revolucionário eu pintava foices e martelos usando pincel atômico na parede dos ônibus da CMTC, com o cuidado de imprimir transgressão no traçado, conforme aprendi nas aulas de Artes. A noite pichava muros bem branquinhos com símbolos comunistas.

Eu estava até curtindo a vida de jovem revolucionário e já pensava em comprar uma boina preta daquelas usadas pelo Che Guevara, nosso herói escolar máximo.

 

Meu entusiasmo durou até o dia que minha mãe, profunda conhecedora dos tempos da União Soviética, contou-me a história de Simas Kudirka, o marinheiro soviético que pulou dentro de um navio americano implorando por asilo político, mas foi capturado de volta pelos seus colegas comunistas, espancado e depois submetido a anos de tortura pela KGB.

No final minha mãe perguntou “que regime é esse que o cidadão não tem liberdade para pensar?” e completou: “se você quer ser rebelde com o sistema, a rebeldia se dá pela defesa da verdade, da liberdade e das virtudes e não somente por ser um boneco obediente e controlado por um bando de poderosos que querem o povo pobre e burro enquanto eles vivem no luxo, mas se mesmo assim você quiser continuar com essa palhaçada, não vou mais te dar mesada.”

Pensei comigo, "sem mesada como eu iria comprar o pincel atômico, o spray Colorgin e a boina do Che?" afinal a revolução custa dinheiro!

 

Naquele tempo eu li o livro Os Anti Soviéticos da União Soviética, do escritor russo dissidente, Vladimir Voinovich, que faz um retrato realista e tragicômico da perseguição e a total ausência de liberdade e privacidade que todo cidadão soviético comum estava submetido pelo Estado; fiquei enojado com aquele estilo de vida, que no Brasil era dito pelos meus professores, como a panacéia da democracia e da igualdade social.

O livro do Vladimir, as histórias da minha mãe e o medo de ficar sem a mesada agiram positivamente sobre mim. Depois de muito refletir conclui que eu não queria mais ser o militante comunista, o que eu queria mesmo era o sapato da London Fog e os discos de bandas inglesas de rock.

Viver controlado por um regime de Estado comunista se tornou piegas e aborrecido.

 

Passei a detestar a armadilha comunista, alias detestava toda a cultura soviética de repressão e falta de liberdade, mas meus colegas adoravam, tanto que hoje, o autor de a tristeza do proletário, se tornou importante figura da esquerda nacional.

 

O tempo passou, ficamos adultos e os camaradas revolucionários enriqueceram com a expansão do lulo-petismo, que os promoveu à base do dinheiro público, patrocínios do MinC e na grana abundante dos festivais de cinema e literatura promovidos por banqueiros esquerdistas.

Hoje fazendo uma autocrítica, percebo que a experiência na escola foi positiva, pois através dela fiquei vacinado contra a picada do mosquito marxista que transmite a febre vermelha.

 

A professora de Artes, já idosa, faz parte do alto escalão do PT e passa as férias na Borgonha bebendo vinhos caros e jantando com figuras ilustres da esquerda francesa.

Dos meus colegas de infância que seguiram firmes na trilha do comunismo, a maior parte hoje são ricos e poderosos, ficando eu como o único capitalista pobre.

 

Talvez eu tenha gastado demais minha mesada com tênis da moda e discos de rock de bandas britânicas, o que hoje é motivo de orgulho, pois é melhor envelhecer ouvindo música na vitrola do que escutar o tilintar das chaves no cinturão do carcereiro.

É que eu, quando criança, nunca aproveitei à contento as aulas de Artes, eu gostava mesmo eram das aulas de História porque nela, os tiranos eram capturados no final.

 

Para ser um bom comunista é preciso começar muito jovem, afinal é desde cedo que se torcem os pepinos! 

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