© Todos os direitos reservados

Re-União 2017

Governo chinês quer restringir o ensino do marxismo

November 28, 2018

 

Justiça poética é o termo normalmente empregado, para quando o veneno atinge quem o administrava. E hoje, é exatamente isso o que acontece, na China.

 

O governo chinês pretende restringir o ensino do marxismo nas escolas e nas universidades, porque isso tem se mostrado um anátema para o governo, no seu trabalho sistemático de manutenção do poder. 

 

O governo chinês – ao menos em teoria –, é comunista.

Tem sido desde 1949, quando o revolucionário Mao Tsé-tung tomou o poder através de uma revolução, e fundou a moderna República Popular da China. Décadas de planejamento central da economia, no entanto, levaram a China ao nível mais extremo de precariedade e pobreza, como sempre ocorre no comunismo. O sucessor de Mao, Deng Xiaoping, promoveu uma abertura econômica na China, reintroduzindo o capitalismo no fim dos anos 1970, e o país voltou a se desenvolver. Mas como no comunismo tradicional, o governo continuou sendo autoritário, e nominalmente comunista. O marxismo, por sua vez, continuou sendo ensinado nas escolas.      

 

Hoje, no entanto, existem estudantes universitários – muitos dos quais se aliam a sindicatos de trabalhadores – que são dedicados ao estudo do marxismo. Os neomarxistas, como são chamados, não reconhecem o atual governo chinês como legítimo. Afirmam que ele se desviou do verdadeiro comunismo, portanto não pode ser qualificado como um legítimo estado operário. E apenas uma revolução poderia derrubar o atual governo, para que fosse implementado o verdadeiro comunismo. 

 

O governo chinês, percebendo o potencial perigo desta situação, pretende implementar severas restrições quanto ao ensino do marxismo, e de organizações estudantis militantes. Agora, eles estão sendo obrigados a lidar com um veneno que eles próprios plantaram, e institucionalizaram. 

 

O estudo do marxismo, do leninismo e do maoísmo é intensamente difundido na vida acadêmica da China, e não raros estudantes tornaram-se fervorosos estudantes de teoria política, pelo fato do próprio governo sistematicamente difundir estes conceitos, o que, há décadas, deixou a vida universitária chinesa impregnada de socialismo cientifico. Mas é aí que o feitiço vira contra o feiticeiro. 

 

Ao estudar a obra de Karl Marx, os estudantes chineses adquiriram a famosa “consciência de classe”, e, consequentemente, chegaram a conclusão de que o estado chinês é um estado elitista, e não um estado operário. Os jovens estudantes neomarxistas veem o comunismo do governo como sendo, na melhor das hipóteses, fictício. É um partido de políticos e burocratas que traíram os verdadeiros ideais da revolução, iniciada por Mao Tsé-tung. Para coibir o potencial revolucionário dos estudantes, o governo chinês deverá restringir severamente o estudo do marxismo. Jovens neomarxistas já estão sendo presos em diversas universidades e regiões diversas do país – sendo vítimas de acusações diversas e arbitrárias – pelas autoridades competentes, por estarem difundindo seus ideais revolucionários.  

 

Parece irônico, mas não é.

Esse é o resultado da institucionalização do ensino de doutrinas revolucionárias. O Partido Comunista Chinês é visto pela novas gerações como velho e caduco, e suas autoridades, como sendo movidas por interesses pessoais e egoístas. O governo chinês, portanto, está sendo vítima do veneno que ele próprio administrou e difundiu sistematicamente. O presidente da China, Xi Jinping, havia solicitado ênfase no estudo das posições ideológicas do governo no sistema educacional. O tiro, no entanto, saiu pela culatra. Se o governo pensava estar imune a este veneno, enganou-se redondamente.   

 

Agora, o governo está desesperado para tomar medidas que coíbam os estudantes e os ativistas neomarxistas, sem parecer que reprova o marxismo. Afinal, parecer comunista é o que legitima o PCC a continuar no poder. Para tanto, é fundamental restringir todo e qualquer uso do marxismo, que não aquele sancionado pelo governo. Ou seja, o de limitar-se a estuda-lo, para ser um bom cordeirinho, que obedece ao governo totalitário em tudo.   

 

Como Erich Fish, declarou "o marxismo que (o partido) ensina nas escolas não é o verdadeiro: é selecionado e interpretado para adaptá-los aos seus próprios fins”. Os neomarxistas, tendo percebido as contradições entre a teoria e a prática, convenceram-se de que o Partido Comunista Chinês é um embuste, um desvio da ortodoxia original. E seria necessário, portanto, derrubá-lo, e colocar no seu lugar um legítimo “partido de trabalhadores”. Claro, mesmo que isto ocorresse – e não ocorrerá, o governo chinês é um dos mais autoritários e repressivos do mundo – sabemos onde isso iria dar: em uma nova ditadura.   

 

Precisamos acabar mesmo com o socialismo e o comunismo?

Claro, devemos continuar nesta luta, pois, além de virtuosa, é necessária. De qualquer maneira, é um grande alívio saber que, mesmo que parássemos de lutar, os marxistas praticam a autofagia. Eventualmente, acabarão devorando a si mesmos.  

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Posts Em Destaque

Ode aos babacas

December 5, 2019

1/10
Please reload

Arquivo
Please reload

Siga
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square