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Re-União 2017

Socialismo – Diferenças entre a teoria e a prática

January 23, 2019

Muitos entusiastas do socialismo são aguerridos militantes marxistas porque não conhecem, de fato, as catástrofes, tragédias e maledicências que o socialismo causou, nos quase quarenta países em que este sistema político e econômico foi implantado.

Muitas vezes, nós cometemos o equívoco de julgar que estas pessoas sabem tudo sobre socialismo, e que são simplesmente pessoas “malvadas” e “perversas” que querem matar a todos nós de inanição, ou através da repressão de um tirânico governo marxista-leninista. Isto, no entanto, não é verdade. Pensar desta forma é minimizar um debate complexo, e conferir ao mesmo um caráter reducionista. Acontece que a maioria dos militantes são indivíduos saturados de conhecimento teórico – que lhes são transmitidos através de livros, lidos ou recomendados por colegas militantes – mas por alguma razão, estas pessoas nunca estudaram o socialismo na prática, com dedicação e profundidade. Muitos militantes nunca tiveram a oportunidade de conhecer alguém que lhes apresentasse o outro lado da sua crença política. E é aí que nós entramos. 

 

Evidentemente, sempre que falamos alguma coisa que contraria as crenças políticas de alguém, não podemos esperar total aceitação, especialmente quando essas crenças estão muito arraigadas. Não podemos nos esquecer que a esquerda não é uma coisa só. Assim como a direita, ela é dividida e fragmentada em muitas vertentes distintas e de maior e menor complexidade. E na grande maioria das vezes, não vamos conseguir nada jogando lenha na fogueira, hostilizando o debate. Sempre vamos encontrar aquele indivíduo, por exemplo, que é um comunista inveterado, que afirma que o comunismo é um bom sistema, e se não deu certo, é porque não era o “verdadeiro” comunismo. Ao tentar explicar o nosso ponto de vista, muitas vezes seremos vilipendiados e escarnecidos, mas isso não é razão para desistir. Eventualmente, vamos encontrar pessoas dispostas a conversar, a ouvir, ou até mesmo a teclar amigavelmente nas redes sociais. Podemos não encontrar isso frequentemente, é verdade. O segredo é persistir e tentar ter empatia pelas pessoas, lembrar que cada ser humano é um mundo à parte, e que indivíduos que pensam diferente de nós também estão lutando contra alguma coisa.    

 

Precisamos, no entanto, estudar o socialismo na prática. E precisamos ser, antes de tudo, indivíduos com conteúdo. Quando as pessoas querem saber porque somos antissocialistas, precisamos explicar os motivos. E mostrar que – através de estudo e pesquisa –, adquirimos o conhecimento de que o socialismo não funciona na prática, por suas disfunções estruturais tanto intrínsecas quanto extrínsecas. E que invariavelmente, para “funcionar”, este sistema político requer o estabelecimento de uma ditadura.   

 

Se temos tempo e paciência, podemos citar quão catastróficos foram os regimes socialistas que surgiram nos quatro cantos do mundo no século 20. O regime stalinista, por exemplo – possivelmente o mais notório dos regimes socialistas – durou quase trinta anos. Começando na década de 1920, terminou com a morte de Stálin em 1954, e matou aproximadamente vinte milhões de russos. Centenas de milhares de pessoas morreram durante os chamados expurgos stalinistas, nos quais o ditador Stálin mandou executar até mesmo inúmeros parentes seus, diretos e indiretos, especialmente familiares de sua primeira e de sua segunda esposa.

 

Quando o regime se estabeleceu, na metade dos anos 1920, o nível de violência institucionalizada do estado contra a sociedade produtiva – especialmente contra pequenos agricultores e latifundiários, nas zonas rurais do país – foi descomunal. O estado pretendia se apropriar de tudo o que possuíam e produziam, para então redistribuir arbitrariamente, de acordo com os seus próprios caprichos. O que ocorreu foi um grande assalto do estado soviético contra indivíduos e famílias pacíficas, agredidas com um nível descomunal de violência, para realizar a fantasia do sistema de planejamento central do governo de partido único, que obedecia a uma ideologia terrivelmente hostil e despótica, totalmente beligerante e avessa à seres humanos. Um alvo especial do estado soviético foram os cúlaques, camponeses russos considerados inimigos de classe e opositores da revolução.

 

No livro Os Ditadores, Richard Overy descreve de forma exata esta situação: “– Não podemos deixar que nossa indústria – anunciou Stálin no início de 1928 – dependa do capricho dos cúlaques. 

 

Os efeitos da renovada guerra de classes foram, a curto prazo, desastrosos. (...) Os camponeses destruíram o seu gado para não deixa-lo cair nas mãos do estado: entre 1928 e 1933, o estoque de gado caiu 44 por cento, o número de carneiros, 65 por cento, o de cavalos, vital para a aradura numa época pré-trator, mais da metade. A produção dos grãos caiu, mas o fornecimento central subiu, deixando grande parte do campo deliberadamente com escassez de comida. A resistência camponesa provocou uma espiral de violência quando membros do Partido Comunista, autoridades e policiais se espalharam nas províncias a partir das cidades para combater a sabotagem camponesa. Os choques violentos e atos de terrorismo subiram de pouco mais de mil incidentes em 1928 para 13 mil em 1930. Naquele ano, houve 1.198 assassinatos e 5.720 tentativas de homicídio e sérias agressões físicas, a maioria contra ativistas do partido e camponeses que voluntariamente entravam nos coletivos. Multiplicaram-se também os motins e manifestações, chegando a mais de 13 mil em 1930 e envolvendo, segundo estimativas oficiais, um total de 2,4 milhão de camponeses. As autoridades encolheram-se sob o ataque, e em março de 1930 Stálin anunciou uma pausa temporária, culpando os ativistas comunitários por estarem “estonteados com o sucesso” no campo. Em outubro, a proporção de fazendas coletivizadas na Rússia caiu de 59 por cento para 22 por cento. O regime reagrupou-se, e no ano seguinte a coletivização foi imposta à força: mais de dois milhões de camponeses foram deportados para campos de trabalho forçado no norte e no leste, e outro milhão dentro de suas regiões.”

 

Dissidentes políticos morreram em quantidades inenarráveis em campos de trabalhos forçados – conhecidos como gulags –, localizados na gélida região da Sibéria. Em sua maioria, os condenados morriam de hipotermia, mas também podiam morrer de fome, exaustão, enfermidades diversas, ou de uma combinação de todos estes fatores. Boa parte dos soviéticos durante a ditadura stalinista, no entanto, morreram de fome. Na Ucrânia – que na época atendia pela nomenclatura de República Socialista Soviética Ucraniana –, aproximadamente dez milhões de pessoas morreram de inanição durante um período que ficou conhecido como Holodomor, uma grande fome que foi causada pelo sistema stalinista de coletivização da agricultura. 

 

O estado soviético deliberadamente provocou a escassez de alimentos em uma tentativa de dizimar o povo ucraniano. De todas as formas, tentavam sufocar seu espírito nacionalista, pois temiam a insurgência de movimentos separatistas. Primeiramente, tentaram proibi-los de falar o seu próprio idioma. Depois, viram no extermínio do povo ucraniano uma possibilidade de manter intacta a integridade territorial da União Soviética, pois, como Richard Overy escreveu em seu livro, “a situação na Ucrânia, onde o partido insistia em extrair as quotas máximas como castigo pela resistência camponesa, era tão desesperada que levou Stálin a observar, numa carta escrita em agosto de 1932, “Podemos perder a Ucrânia”.” Neste período, muitas pessoas recorreram ao canibalismo para sobreviver. 

 

Grupos brasileiros de extrema-esquerda apoiam Stálin e o consideram um herói revolucionário. Entusiastas mais “moderados” do comunismo afirmam que o que ocorreu na União Soviética não era comunismo de fato, mas stalinismo, uma “deturpação” do “verdadeiro” comunismo. Mesmo que aceitemos este fato – o que seria uma falácia –, estes indivíduos deveriam entender que o stalinismo foi um sistema totalmente derivativo do socialismo marxista-leninista. Ou seja, foi basicamente a mesma coisa. 

 

A China maoísta foi outro exemplo de regime socialista cruel e, responsável por aproximadamente sessenta milhões de mortes, sem dúvida o mais letal de todos. Assim como o regime de Stálin, na União Soviética, a China se transformou em um sistema de partido único, governado por um ditador. Mao Tsé-tung – que ascendeu ao poder depois de uma guerra civil travada contra seus oponentes políticos, os nacionalistas –, pretendia controlar todos os aspectos concernentes à sociedade chinesa, inclusive a produção de alimentos e a economia. E o resultado de um sistema de planejamento central, como a história comprovaria inúmeras vezes posteriormente, é sempre catastrófico.  

 

No final dos anos 1950, Mao deu início a um ambicioso projeto de coletivização da agricultura, que ficou conhecido como O Grande Salto Adiante. Como as quantidades de frutas, verduras e vegetais plantados não foram equivalentes às registradas – por medo de registrar colheitas pequenas, os fiscais do partido inflaram deliberadamente os números – diversas regiões da China sofreram com uma brutal e dramática escassez de alimentos. Como resultado, milhões de pessoas morreram de inanição. Outras tantas recorreram ao canibalismo para sobreviver. Muitas famílias trocavam bebês para não serem obrigadas a comer os seus próprios filhos. 

 

Como o socialismo chinês – assim como o soviético –, transformou-se em uma ditadura, o que seria um fator recorrente em regimes socialistas, o tirano Mao Tsé-tung tentou controlar absolutamente todos os aspectos da vida de seus correligionários. Na segunda metade dos anos 1960, ele deu início a um projeto que ficou conhecido como Revolução Cultural, no qual o estado se dispôs a controlar tudo o que as pessoas viam e liam, em uma tentativa de redefinir a cultura chinesa de acordo com valores proletários. Quem fosse considerado subversivo era severamente castigado e punido pelo estado, às vezes sendo até mesmo executado. O governo socialista se empenhou tanto em controlar a vida das pessoas em tudo, que até mesmo possuir determinados animais de estimação tornou-se ilegal. Gatos e canários, por exemplo, eram considerados animais burgueses, e foram proibidos. A vida dos chineses, consequentemente, acabaria saturada de restrições. Diversas obras de arte, filmes e literatura que não se enquadravam com os princípios do partido comunista foram destruídos, alguns dos quais eram patrimônios culturais milenares.  

 

Outro regime brutal e maligno foi o do Khmer Vermelho, no Camboja. Apesar de ter se estendido por apenas quatro anos – de 1975 a 1979 – foi um dos regimes ditatoriais mais brutais, cruéis e sanguinolentos que já existiram. Quando o ditador Saloth Sar, que ficou conhecido como Pol Pot, tomou o poder, obrigou toda a população a sair das zonas urbanas, realocando-as para as áreas rurais do país. A capital, Phnom Penh, foi evacuada em setenta e duas horas, transformando-se depois disso em uma grande cidade fantasma. Tudo porque o ditador queria realizar a sua utópica fantasia coletivista de matriz nacionalista, capitaneada pelo rigor produtivo de um socialismo agrário, donde emergiria uma nova civilização, que resgataria a grandiosidade do seu passado histórico, com ares de autossuficiência: a nação deveria produzir tudo o que necessitava. Um fetiche muito comum a nações governadas por fábulas e delírios políticos socialistas. A Coreia do Norte se baseia no mesmo princípio.  

 

Por sua ojeriza a tudo o que era ocidental, e que não era parte inerente da cultura cambojana, o ditador mandou destruir farmácias, medicações e hospitais inteiros. A população, forçada a trabalhar muitas horas por dia nos campos e nas fazendas coletivizadas – e a maioria não familiarizada com a atividade agrícola, pois nunca haviam exercido a função – morria de exaustão durante as extensas e infindáveis jornadas de trabalho, ou de fome, pois a produtividade acabou sendo insuficiente para alimentar a todos os cambojanos. Com uma produção de alimentos escassa, que ficava progressivamente menor, e um regime de terror implacável no tratamento de indivíduos considerados subversivos e opositores, o morticínio de cambojanos executado pelos integrantes do Khmer Vermelho foi elevadíssimo. Com a total ausência de medicações e tratamento, muitas pessoas morriam de infecções e doenças que, em circunstâncias normais, seriam perfeitamente curáveis. 

 

Diversas raças e etnias eram ostensivamente discriminadas. O regime, com sua natural retórica nacionalista, enxergava camponeses natos como os únicos cambojanos genuínos. Para todos os demais, o tratamento dispensado era frio e cruel. Até mesmo um curto ditado do Khmer Vermelho tornou-se proverbial para explicitar o desprezo institucionalizado do estado para com os cidadãos: “Mantê-lo não é nenhum benefício. Destruí-lo não é perda nenhuma”. O governo comunista também estabeleceu zonas específicas de extermínio para os inimigos do regime, que ficariam conhecidas como campos de matança. Em um país menor que o estado onde vivo – Rio Grande do Sul –, e que na época contava com uma população de aproximadamente oito milhões de habitantes, a ditadura do Khmer Vermelho, que durou apenas quatro anos, exterminou entre dois e três milhões de cambojanos, ou seja, ¼ da população. O Camboja é também o país com o maior número de sepulturas coletivas que existe no mundo – cerca de 23 mil.  

 

Infelizmente, todos os exemplos citados constituem apenas uma fração das desgraças que o socialismo causou pelo mundo. Poderíamos citar a Grande Fome da Coreia do Norte, que durou quatro anos – de 1994 a 1998 – e matou aproximadamente três milhões de pessoas. A Albânia comunista de Enver Hoxha, um tirano brutal que governou esta pequena nação do sudeste europeu por mais de quarenta anos, de 1944 a 1985, estabelecendo-a como o primeiro estado compulsoriamente ateu. A Romênia comunista de Nicolae Ceaușescu, cuja data de aniversário era considerada um feriado nacional, e neste dia todos eram obrigados a ficar o dia inteiro sorrindo. Ser visto desanimado ou de cara feia era demasiadamente perigoso. A Romênia de Ceaușescu era uma nação onde a escassez, a hiperinflação e a opressão estatal, ostensivamente brutal, considerada excessiva até mesmo para os padrões stalinistas do leste europeu, deixaram marcas profundas na população. A Alemanha Oriental do ditador Erich Honecker, uma nação de impiedosa e frívola brutalidade, no qual alemães desesperados tentavam pular o muro de Berlim para conquistar a sua liberdade. A Sérvia do ditador socialista Slobodan Milošević, também conhecido como o carniceiro dos Balcãs, que presidiu um verdadeiro regime de terror na antiga nação iugoslava, sendo depois julgado pelo tribunal de Haia, até hoje lembrado por seus conterrâneos com extremo repúdio e desgosto. Bulgária, Hungria, Tchecoslováquia. O Zimbábue de Robert Mugabe, que governou o país de 1980 até ser destituído por uma intervenção militar, em 2017, depois de quase quatro décadas no poder, foi outro exemplo de um regime socialista brutal e nefasto. E os exemplos aqui na América Latina – Cuba, Venezuela e Nicarágua, que dispensam apresentações e conhecemos tão bem.  

 

Exemplos não faltariam. O que falta é disseminarmos o conhecimento exato de tudo o que acontece em um país quando o socialismo é colocado em prática. Por sua matriz produtiva centralizadora e discricionária, que não oferece espaço para a liberdade, a economia de um país socialista estará invariavelmente fadada ao colapso, o que levará à nação a experimentar a sofreguidão da miséria, da escassez e da inanição e, consequentemente, o morticínio de milhares ou milhões de pessoas. Como está alicerçado a um condicionamento de extremo poder para o estado, o socialismo sempre resultará em ditaduras, sendo um sistema formidável para psicopatas que querem conquistar poder político irrestrito e ilimitado, com capacidades plenas de exercer completo controle sobre a vida de todas as pessoas que estão sob o seu jugo. E confiar tanto assim em políticos é uma completa ingenuidade. 

 

Como acontece em qualquer sistema socialista, todos os indivíduos que chegam no poder estabelecem um regime de partido único, e tudo passa a girar de acordo com os caprichos de um ditador. Ao longo de todo o século 20, vimos esta situação se repetir dezenas de vezes. Um militante socialista inveterado é alguém que está solicitando aos seus correligionários que exerçam completa confiança e entreguem todas as decisões de sua vida a um corpo de burocratas, o que não é apenas insensato, mas completamente imoral e irracional. Por isso, essas pessoas precisam de indivíduos que lhes abram os olhos. Os seres humanos precisam de independência e autonomia, e não de servidão escravagista e tirania. 

 

O discernimento de que o socialismo, na teoria, é uma coisa, e na prática é outra completamente diferente, é fundamental para conduzirmos o debate a um patamar superior. O alabastro teórico do socialismo serve como ferramenta de recrutamento. O socialismo, na prática, é um tirânico e nefasto projeto de poder. O grande triunfo da teoria é justamente ludibriar as pessoas, e torná-las incapazes de perceber quão nocivo e letal o socialismo realmente é. 

 

O socialismo já foi colocado em prática aproximadamente quarenta vezes, em quatro dezenas de países. E em nenhuma dessas ocasiões ele foi implementado de forma “errada” ou “equivocada”. São determinadas pessoas que precisam ser corrigidas para exercer o seu discernimento, e aprender a distinguir o socialismo por aquilo que ele realmente é. Uma brutal, cruel e agressiva ferramenta política, cujo objetivo real é a escravização compulsória de seres humanos, e a sua total submissão a um vertical e totalitário projeto de poder. 

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