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Re-União 2017

Ontem de noite

January 27, 2019

Tive sorte, ontem. Troquei idéias com gente interessante.Falei sobre o desastre, a inundação, o horror que aconteceu em Brumadinho. Um nome poético, aliás. Mas não é isso que eu queria contar.

É sobre três documentários que vi na madrugada, no Arte 1.

 

O primeiro, sobre a ótima pintora americana Georgia O’Keeffe (foto). 

Outro com o Marlon Brando. E o terceiro, o segmento inicial da

série Guerra e Paz. Tudo de madrugada, hora em que se está com

a cabeça aberta, igual uma antena telescópica que capta coisas

para as quais você deveria sempre estar atento, mas que a rotina da existência não permite registrar - pois o cotidiano ocupa todo

espaço da inteligência.

 

Ontem, então, foi um delírio de imagens e sentimentos.

Um pedaço meu ficou em hipnose assistindo a vida de personagens

que fazem parte de mim e da história da minha vida. Mesmo que eu não tivesse conhecimento disso, antes. 

Numa escala de 0 a 10 do entendimento de tudo que já me aconteceu, tenho números altos de identidade com as mil  figuras que apareceram nas imagens cinematográficas em que fiquei mergulhado.

Que privilégio estar vivo e poder perceber que somos todos um só, em diferentes percursos. Não julguei nem uma ou outra das pessoas que iam aparecendo. Não julguei, porque também não quero ficar eternamente me julgando. O Tolstoi, não julga, ele conta histórias. Teve uma cena, no Guerra e Paz que faz o raio X da alma de um dos personagens. Muito tocante.

 

Assim: o fulano, voltou da guerra onde passou o inferno. Agora na frente de um prato, ele pode comer. Está em seu quarto de castelo suntuoso e à sua frente, um prato com carnes e batatas, trazidas pelo seu mordomo. Ele olha, e olha por longos minutos, absorto. Espeta o garfo numa batata, parado, e não se anima a comer.

Corta então um pedaço dela e põe na boca. Fica ali, olhando sem ver. 

E se decide, em seu interior.

O maxilar se põe a funcionar deliberadamente. E vai mastigando a batata, só com os dentes, sem deixá-la se espalhar pelo palato. Percebe-se, naquele momento, que ele está em estado de prece. Os tempos da prisão se passando dentro da cabeça e ele, hesitante, só se deixa levar pelo ato de comer e sobreviver. 

 

Isso é cinema, literatura, o surpreendente é que outra pessoa está sentindo o que você também sente, às vezes, também. Somos todos humanos e uma fina camada psíquica engole nossos corpos, nos empurrando para o entendimento de sermos todos iguais perante a

vida e a morte.

Nada mais consolador do que nos perceber identificados nos mesmos sentimentos, todos nós. Então, ontem, foi uma grande noite.

Dormi, depois, quando o dia começava em meu quarto.

Uma iluminação fraca penetrava pelas frestas da janela, espantando as lembranças do que eu ia perdendo, progressivamente, de tudo quanto minha sensibilidade havia se apoderado na noite, como uma espécie de polaroid que amarelava e perdia as cores da experiência noturna,

ajustando minhas forças para um novo dia. 

 

Costumávamos, nos tempos quando eu lia Sartre, em tempos de juventude, a passar por tais emoções descritas como experiências existenciais. Pelo menos essas provocações do espírito me dizem quão bom ainda é não ficar exageradamente pragmático, reduzindo a vida

só em vive-la.

 

*Foto Alfred Stieglitz

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