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Re-União 2017

Brumadinho:não consigo perdoar os responsáveis

January 30, 2019

No colégio de padres agostinianos onde estudei, era obrigatório fazer a ”confissão”, antes da missa dominical, que era para limpar a alma. Eu tentava esconder meus pecadilhos, mas o padre, atrás da grade escura, não perdoava: pelo sim, pelo não, eu tinha que rezar uma penitência, por via das dúvidas.  

Me sinto assim, agora. Quantos padre-nosso, eu teria que rezar nestes tristes dias? Olho as fotos de Brumadinho e deleto instantaneamente as imagens trágicas. Mas elas me voltam, basta ficar distraído.

Então, como que transido de ódio, quero que os responsáveis fiquem logo com a boca cheia de formiga. Se eu estivesse em confissão, teria que dizer: sou culpado, Senhor, pois não consigo perdoar quem causou essa desgraça tão coletiva.

 

E me bate outro sentimento, paralelo: a frustração de não poder fazer nada. A Vale pensou por mim, muitos anos atrás. Criou seu império de mineração, corrompeu, distribuiu benesses e não caiu do cavalo. Podem escrever: e nem vai cair. Esses burocratas e políticos vendidos já têm acumulado dinheiro suficiente para virar o Código Penal de cabeça para baixo. Eles vão sobreviver, agarrados em fortunas manchadas de sangue. Meu desejo de vingança vem dos tempos do catecismo com capa de madrepérola: certamente eles hão de pagar no inferno.

 

Ouço, neste instante, trovões e chuva lá fora, como tem acontecido em quase todas as tardes, neste verão quente, infernal. E me sinto como que um homem do período neolítico, assustado pelos estrondos e escondido na caverna. Um Deus infinitamente poderoso estará bramindo lá fora....

contra nós?

 

De acordo com meu antigo padre confessor, que me achava culpado, aceito meus pecados. Muitos imagino. O Deus Onipotente que deve me ver transparente sabe porque tenho que carregar minha pena de erros e covardias, pelos quais devo pagar. 

Dia mais, dia menos, vou ser sentenciado e jogado no inferno, é provável. Eu também fui omisso, quantas tragédias deixei rolar?

 

E os que morreram em Brumadinho, o que será que pensaram, enquanto ficavam cegos de lama, sendo levados de roldão pelo pesadelo de se saber morrendo, sufocados pelas águas?

Nenhum padre confessor por perto, nenhum perdão, só um fim arranjado por burocratas em suas escrivaninhas, longe daquele inferno. 

Vou rezar um padre nosso, agora, e pedir aos Céus, existam ou não, para que tenham compaixão por eles e por mim.

 

Até agora: 99 óbitos confirmados 57 corpos identificados 259 pessoas desaparecidas. 

 

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