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Re-União 2017

Tragédias brasileiras,a culpa é do japonês

February 12, 2019

Tantas desgraças acontecendo nesse começo de 2019 que começo a achar que a culpa é do japonês.Vou explicar.

Tive um colega japonês muito econômico, chamado Chiba. Ele era daqueles que dizemos ter um escorpião na carteira. Seu lema tanto em casa quanto na empresa era ‘cortar gastos’. Ele até fazia piada sobre isso.

 

Assim quando uma empresa começava a reduzir despesas de forma drástica, ou demitir funcionários por questões de economia, eu jocosamente dizia que o ‘Dr. Chiba começou a operar'. 

 

Quando deixei  São Paulo e me mudei para o interior de MG, descobri que a palavra “MUCHIBA” era empregada sarcasticamente para designar um sujeito pão-duro. Quanta coincidência!

 

Com o passar do tempo percebi que a ‘muchibagem’ empresarial virou um vício, se transformando em uma poderosa indústria do corte de  gastos, ou ‘reengenharia’ como dizem os modernosos e para tal, consultores, gestores de recursos e gerentes da nova era surgiram aos borbotões, todos prometendo economias que iriam novamente colocar as empresas no caminho da tão sonhada, porém achatada, lucratividade, sem afetar o produto final. Quanta mentira.

 

Nos últimos 10 anos, todos os tipos de cortes, até os mais insanos, foram realizados nas empresas brasileiras. Sejam privadas ou estatais, micro ou grandes multinacionais, todas receberam a visita do médico mineiro-japonês, Dr. Mu Chiba, com suas mãos de tesoura.

 

O problema foi justamente o excesso e hoje essas tragédias que nos enchem os olhos de lágrimas, são na maioria resultantes do corte de despesas mal planejado, que eliminou gastos necessários para as empresas e que não poderiam jamais ter sido eliminados, pois comprometeram profundamente questões importantes na relação corporação->produto->sociedade.

 

Hoje o termo mais adorado no ambiente corporativo é o 'corte de despesas’. Estão demitindo funcionários que entendem das coisas e substituindo-os pelos jovens recém formados que pouca experiência possuem, mas que se sujeitam a trabalhar cada vez por menos, porque estão mais interessados em ingressar no mercado de trabalho e construir carreira do que na remuneração em si.

 

A febre da muchibagem está cortando despesas em lugares que não tem mais o que ser cortado. Tudo hoje no Brasil tem sido sistematicamente piorado visando somente substituir o bom pelo mais barato. E aí vem aquela sensação estranha dos alimentos que perderam o sabor, o carro 1.0 que não anda nada e consome como um carro grande, o espaço entre as poltronas dos aviões, que encolheram e a vergonhosa redução do tamanho, volume e peso dos produtos. Tudo isso é a insanidade pela redução de custos.

 

Esse pensamento produziu a falsa exigência que no Brasil tudo tem que ser o mais simples, o mais básico, o mais popular, o que dura menos, o que custa pouco, o mais acessível. Todas as decisões das empresas passaram a ter como foco principal, o corte de despesas e não se fala em outra coisa, a qualidade virou secundária.

 

Funcionários que no passado ficavam famosos por solucionar questões complexas, serem criativos e levar a empresa ao sucesso, hoje são vistos como profissionais ultrapassados, pois o requisito para os novatos é saber extrair água de pedra.

 

É a mão descontrolada do Dr. Mu Chiba que tem destruído barragens, afundado plataformas de petróleo, derrubado aviões, causado apagões, lançado cápsulas de césio radioativo em sucatas de periferia e provocado incêndios pavorosos. Tudo isso é resultado da economia excessiva que se faz sem planejamento e sem conhecimento de causa.

 

Essa sanha em se reduzir gastos, colocou em cena, um exército de pessoas desqualificadas, incapazes e com má formação, que são valorizadas apenas porque custam pouco e empregam o mínimo possível, os recursos da empresa. Nas licitações, vence sempre o fornecedor mais barato, que tem o produto ‘mais em conta’, independente de qualidade e compromisso.

 

Sem falar na tecnologia envolvida no processo produtivo, porque em muitos casos, está havendo substituições de tecnologia eficiente e precisa, por máquinas mais baratas, de ‘fácil manutenção’ e de ‘baixa depreciação’, porque são compradas de segunda mão, de países desenvolvidos que as descartaram como sucatas. Neste ponto encontramos duas variáveis perigosas quando unidas: a redução da qualidade do fator humano casada com a oferta de tecnologia obsoleta, ultrapassada e abaixo das exigências mundiais em termos de competitividade e segurança.

 

Calma, a culpa não é só do empresário, que acuado, atira pra todo lado.

No fundo, tanto o Dr. Mu Chiba quanto a moda insana de trocar qualidade e confiabilidade por custo baixo, é uma doença  resultante da própria ferocidade do Estado brasileiro que nos últimos 20 anos extorquiu as empresas através de impostos abusivos, que hoje representam até 40% do faturamento, sem falar na demolição da infraestrutura nacional, dos juros altos, alto preço das fontes de energia, apagão de mão de obra, explosão da criminalidade e aumento do controle burocrático do Estado sobre quem produz.

 

As empresas não têm mais como reduzir impostos e custos operacionais fixos, nem compensar aquilo que o Estado deveria proporcionar, mas não faz, todo o gargalo financeiro se concentrou no produto final. É nele que está rolando o vale tudo. O governo sugou tanto quem produz, que hoje, com exceção de bancos, estatais, empreiteiras, políticos e especuladores, ninguém mais ganha dinheiro no Brasil, em poucas palavras: todo o comércio-indústria hoje vive apenas de reduzir o tamanho de seus produtos, diminuir salários, cortar empregos, subtrair a qualidade final, tudo isso para poder se manter pagando os maiores impostos do mundo e desta forma, enriquecendo políticos insaciáveis e vorazes por ouro e benefícios.

 

Infelizmente o corte de despesas radical começou a cortar vidas e é bom o governo e a sociedade abrir os olhos com instituições realmente exigentes como a Usina Nuclear de Angra, o sistema elétrico, barragens de mineradoras, aviação  e todos os setores privados ou estatais que requerem alto nível de pessoal e tecnologia, porque uma coisa é reduzir a qualidade do papel higiênico ou do café dos funcionários, outra é cortar verbas de manutenção em um reator nuclear, onde um único parafuso chega a custar US$ 20mil.

 

Enquanto a muchibagem for prioridade nas empresas teremos tragédias das mais variadas e muitas  vítimas. 

A falência de nossa economia e a voracidade do Estado brasileiro são os verdadeiros  pais que deram origem ao Dr.  Mu Chiba.

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