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Re-União 2017

Jogo cruel

February 23, 2019

 

 

O que está ocorrendo na Venezuela neste exato instante é um daqueles momentos históricos em que só resta um travo amargo na boca. Atirar contra o próprio povo, que se arrisca por causa de comida? Nicolás Maduro foi para um novo nível neste jogo cruel.

 

Durante muito tempo, Chavez e Maduro mataram seu povo a conta-gotas, inoculando diariamente os venenos da fome, do desabastecimento, da desesperança e de uma violência descontrolada. Também expulsaram sua gente do chão em que nasceram. Segundo o Alto Comissariado da ONU, 2,7 milhões de venezuelanos deixaram o país nos últimos quatro anos. Em 2018, cinco mil pessoas abandonaram sua terra a cada dia. Sim, a cada dia. E isso diz muito sobre o pesadelo em que se converteu a Venezuela.

 

Aos poucos, a economia em frangalhos e as decisões desastrosas fizeram com que se erguesse a voz de uma oposição que foi recebida a bala nos protestos. Derramou-se o sangue daqueles que os defensores do bolivarianismo juravam proteger. Na época, lançou-se mão da desculpa esfarrapada de que eram conflitos violentos.

 

Mas hoje se foi além e nem essa desculpa frágil se pode usar. Perante a "ameaça" de ajuda humanitária - que a mente transtornada de Maduro transformou em tentativa de invasão à Venezuela - um indígena morreu e outros ficaram feridos em Kumarakapay, a 70 km de Santa Elena de Uairén, na fronteira com o Brasil. O Exército venezuelano disparou contra os índios quando estes pediam a abertura da fronteira para que pudessem receber a ajuda humanitária internacional.

 

Os guardas liberaram a passagem para o Brasil de duas ambulâncias venezuelanas, com pelo menos cinco pessoas feridas no incidente. Os indígenas foram levados ao Hospital Geral de Roraima, em Boa Vista. Para onde mais iriam se na Venezuela já não há medicamentos básicos?

 

Olho para as fotografias nos sites de notícias e só consigo me perguntar se estes dirigentes brutais, cegos em suas disputas políticas, esqueceram que uma pátria é tão-somente o conjunto da população que vive sobre os limites de uma terra.

 

Não é o território delimitado que faz um país, mas a gente que vive e trabalha sobre ele. É seu bem mais precioso, retrato vivo e agente de sua cultura e ethos. Tire-se as gentes e o espírito de uma Nação se desfará, suas tradições aos poucos se apagarão e tudo o que a compõe se perderá irremediavelmente.

 

Que estranho amor à Pátria é este de Maduro, que não hesita em assassinar os próprios compatriotas? Que não se comove em ver seu povo ser reduzido à mais dura miséria? Que finge não ver o sofrimento geral?

 

Talvez seja a hora de relembrar a Nicolás Maduro a famosa frase do discurso de despedida de seu ídolo Simón Bolívar: 
"A minha última vontade é a felicidade da pátria. Se a minha morte contribuir para o fim do partidarismo e para a consolidação da União, baixarei em paz à sepultura."

 

Ouça o Bolívar, Maduro, e olhe para o que fez com seu país. Ali, sobre aquele mar de petróleo, seu povo agoniza, faminto e agora baleado. Não há felicidade na sua pátria.


*Foto: Ricardo Moraes/Reuters

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