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Re-União 2017

A truta azul

March 14, 2019

Eu estava naquele restaurante e o garçon me dizia que a especialidade da casa era a "truite bleu". Hesitei, mas sem pensar muito, decidi experimentar. Queria só que ele me explicasse esse prato francês, que parecia tão sofisticado.

Então o garçon contou.

 

Pega-se uma truta, dentro do aquário, e joga-se o peixe ainda se debatendo numa caçarola com água fervendo. Ele mergulha dentro das borbulhas da quentura e depois de alguns segundos, fica azul com o choque térmico..

Um cadáver azul, devidamente cozido. Ahhhh... então compreendi.

E não, eu não queria a tal "truite bleu". 

 

Tem mortes exageradas de sofrimento, que nos fazem imaginar a nossa

dor, como será que vai acontecer? Ninguém garante que não vamos morrer igual a uma truta dentro da panela quente, que aquela morte horrível não venha a acontecer conosco. Uma casa que pega fogo, um curto-circuito, um caminhão incendiado que se joga contra nosso carro, morre-se porque se está vivo, como dizia minha avó. 

 

As mortes de ontem, como aconteceram?

Vi na TV, pelas câmaras de segurança, um minuto antes da tragédia começar.  No recreio da escola, aquela azáfama de adolescentes, cheiro

de lápis de cor, todo mundo rindo, conversando.

Entra um rapazinho que puxa um revólver que trazia escondido e começa a atirar, quem estava na frente, levou bala. Gritos, correrias. E começam a cair os corpos mortos.

 

O garoto assassino então pega uma machadinha da mochila e começa a desfigurar uma mulher caída, arrebentando-lhe a cabeça, o rosto, em golpes furiosos.

 

No resto das cenas “ao vivo”, foi como se uma grande mão invisível  passasse uma escumadeira naquela escola, recolhendo trutas que seriam então jogadas no inferno de tiros, facadas e machadadas.

Difícil entender aquele horror.Como se aquelas pessoas já tivessem sido escolhidas no cardápio das fatalidades, trutas destinadas ao massacre cruel.

 

Eu ainda ouvia o garçon que, orgulhosamente, explicava como se prepara as “truite bleu”. Me ocorreu na hora, imagens de judeus, vítimas dos nazistas na II Guerra Mundial, sendo jogados dentro dos fornos de gás, e depois queimados, sobrando só ossos e cinzas. Ou enterrados ainda vivos, em grandes covas coletivas, para não gastar munição. A terra, em cima deles, ainda ficava se mexendo, dias depois.

 

Eu choro pelos mortos, choro mesmo, em soluços pesados, que me sacodem os ombros. E não entendo, não consigo. Nem aos nazistas, nem aos assassinos e nem a morte de tantas pessoas nesse massacre ainda sem nome.  Truite bleu?

Hoje e enquanto minha lembrança durar, estarei de luto.

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