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Re-União 2017

Aqueles que não sabiam dialogar

April 18, 2019

Perante novos casos de massacres cometidos por jovens ainda em amadurecimento é preciso nos inteirarmos do que pode ser tido como motivação comum entre eles e outros casos do passado.

 

A recente tragédia de Suzano em São Paulo nos lembra que ainda existem certas "áreas cinzentas" na sociedade onde pouco se sabe ou se articula a respeito do que fazer para evitar novos acontecimentos aterradores como estes, jovens que perdem a empatia por completo, ao ponto de se tornarem ferramentas de massacres contra pessoas inocentes, muitos do quais nem sequer conheciam eles.

 

Ainda que as motivações sejam dignas de debates prolongados, dada a longa lista de suposições, existem certos fatores que se atrelam à vários destes atiradores como ligação comum, o FBI analisou que, em 63 casos analisados nos EUA durante 2000 e 2013, mais de 70% dos atiradores em questão possuíam alguma espécie de rancor em relação à pessoas presentes nos locais onde os tiroteios ocorreram, dando enfase a esta motivação temos uma entrevista do atirador em massa norte-americano William Edward Hardesty, que em 1978 matou sete pessoas, incluindo seu pai e sua mãe, ele disse que: "Eu saía do trabalho, aparecia e ele [seu pai]segurava minha cabeça. Ele costumava me chamar de "Willy dos Nódulos", porque eu tinha vários nódulos na cabeça, mas foi ele quem os colocou lá, apenas cresceram. Eu não consegui lidar com isso e em vez de tentar falar com ele - se eu fizesse isso, ele me daria um murro - eu atirei nele, na minha mãe, no meu cunhado, num cara que trabalhava com ele e nos outros.", o Dr. James L. Knoll, Diretor de Psiquiatria Forense na Universidade Médica de Siracusa em Nova York e o Dr. Ronald W. Pies, Professor do Departamento de Psiquiatria na mesma universidade, relatam que "atiradores em massa são tipicamente (embora nem sempre) homens rancorosos, ofendidos, emocionalmente instáveis, ou socialmente isolados que procuram retribuição ou vingança por percebidos maus tratos, rejeição ou humilhação."

 

Famílias mal estruturadas demonstram fortes indícios de que sejam estimulantes na decorrência destes massacres, como foi o caso do William Hardesty, quando estes indivíduos são humilhados e violentados pelos próprios familiares ou conjugues, quando negligenciam a criação dos mais novos por estarem envolvidos com drogas pesadas ou simplesmente ausentes, a tendência de que se tornem ameaças de alguma forma à eles mesmos e à sociedade é extremamente alta, numa pesquisa feita entre 1999 e 2013 por um dos braços de pesquisa de política pública do Congresso dos Estados Unidos, a CRS ou Congress Research Service, se revelou que dos 193 casos constatados, que se encaixam como os tiroteios em massa em questão, 145 tiveram motivação dentro da família, tendo a própria família como alvo principal em 131 dos casos.

 

Todavia parece sensato se considerar que essas motivações apenas não seriam o suficiente para cometer tais crimes, pois são muitos os cidadãos que vivem diariamente imersos em instabilidades emocionais, isolamentos sociais e até alimentando rancores por acontecimentos contrários em suas vidas, mas nem por isso cometeram massacres ou sequer cogitam sombria possibilidade, mesmo que essa situação influencie de forma agravante em suas vidas e deva ser tratada com urgência, geralmente os que são atingidos com essas mazelas acabam por sofrer de depressão e nos piores casos contemplam o suicídio, o diferencial aqui talvez seja a índole já mal estruturada destes atiradores em massa que usaram estas motivações apenas como o impulso que precisavam.

 

Muitas vezes, embora nem sempre, foi observado que este impulso também é induzido por outras pessoas, seja presencialmente ou à distância, como foi visto no caso dos Incels, que significa Involuntary Celibates, ou seja, Celibatários Involuntários, são internautas que assim se denominam por terem como ponto convergente a rejeição que sofrem de seus respectivos interesses passionais, muitos dos espaços online criados por eles disseminam o ódio pelos bem sucedidos em relacionamentos ao ponto de estimular o assassinato em massa quando possível por qualquer membro do grupo, muitos destes espaços já foram tirados do ar, mas eles sempre tendem a voltar de alguma forma, o resultado destes estímulos pode ser retratado no caso do canadense Alek Minassian que atropelou um grupo de pedestres em alta velocidade em 2018 matando 10 pessoas, um pouco antes do ocorrido ele publicou esta mensagem no Facebook em que dizia: "A rebelião 'incel' já começou! Vamos derrotar todos os Chads e Stacys. Todos saúdem o cavalheiro supremo Elliot Rodger!", Chads e Stacys na nomenclatura deste grupo são os homens e mulheres atraentes sexualmente ativos, já o Elliot Rodger mencionado foi outro indivíduo que assassinou 6 pessoas em 2014, se matando logo em seguida, era tido por muitos Incels como uma espécie de líder deste movimento, ele se dizia injustiçado pela rejeição que recebia já que era um homem cavalheiro e digno de endeusamento, chamando de "Dia da Retribuição" a data de seu atentado e disse que "não tinha outra alternativa a não ser se vingar da sociedade".

 

No massacre de Suzano nos foi revelado outro espaço que instiga tais discursos de ódio e assassinato em massa na internet, presente dentro da Deep Web, mais precisamente a Dark Web, a Deep Web seria no caso a área virtual onde trafegam informações sigilosas como contas de bancos e documentos militares por conta de seu difícil acesso, já a Dark Web seria a parte mais sombria e ilegal da Deep Web, onde vários tipos de criminosos se aproveitam do anonimato possível nesta parte da rede, muitas vezes para vender artigos de contrabando ilegal, armas e drogas, e nos casos ainda piores para propagar e divulgar as mais ofensivas ameaças à humanidade, como cenas de violência explícita e perturbadora contra indivíduos quaisquer, até mesmo crianças como é no caso da pedofilia que também circula nesta área, no caso dos atiradores Guilherme Taucci Monteiro de 17 anos e Luiz Henrique de Castro de 25, envolvidos no assassinato de 8 pessoas da Escola Raul Brasil em Suzano - SP, eles faziam parte de um Chan, um tipo de grupo da Dark Web onde os mais diversos temas sombrios são discutidos e encorajados, no Chan que participavam, chamado de Dogolochan, foram ambos ensinados e encorajados em como proceder, inclusive a cometerem suicídio no final, tiveram ajuda para comprar as armas utilizadas que eram ilegais e falsificadas, porém funcionais, e após o final do massacre e seu desdobramento na mídia foram ambos parabenizados como heróis dentro desse mesmo grupo. Antes do atentado os assassinos publicaram no grupo a seguinte mensagem: "Muito obrigado pelos conselhos e orientações, DPR [administrador do Dogolochan]. Esperamos do fundo dos nossos corações não cometer este ato em vão. Todos nós e principalmente o recinto será citado e lembrado. Nascemos falhos, mas partiremos como heróis. O contato [das armas] nos trouxe tudo dentro dos conformes. Ficamos espantados com a qualidade, dignas de filmes de Hollywood. Infelizmente não existem locais para testarmos e tudo acontecerá de forma natural, com a aprendizagem no momento do ato. Fique com Deus, meu mentor. O sinal será a música, no máximo 3 dias depois estaremos diante de Deus com nossas 7 virgens. Levaremos a mensagem conosco."

 

Também está presente nestes Chans, semelhante aos grupos dos Incels, um certo derrotismo imbuído em seus usuários, se presencia uma sensação coletiva de rejeição e isolamento mascarada de repúdio extremamente violento pela humanidade, em especial as mulheres, pois é a rejeição delas que mais utilizam como agravo em suas mentalidades distorcidas, por conta disso existe uma grave objetificação das mesmas em ambos cenários, pode ser dito então que os distúrbios que cada um ali dentro carrega se agrava ainda mais por encontrarem naquele meio não só uma espécie de confirmação de seus motivos de cólera, mas também um encorajamento coletivo quase ensurdecedor para se vingar. Estimulando assim uma visão torpe da realidade que os fazem desacreditar de um propósito maior nas suas vidas, o enfoque nas atribulações que podemos sofrer é quase que inteiramente exclusivo, onde eles se bombardeiam todos os dias de informações nocivas acarretando numa autoestima cada vez mais inexistente, o resultado disso como podemos ver é criação de pessoas completamente apáticas e destrutivas, dispostas à se matarem levando consigo o máximo possível de vítimas, para assim causar o maior impacto que puderem em seus protestos contra a realidade.

 

Outro fator preocupante é que com a vasta e prolongada exposição da mídia sobre estes massacres causando grande repercussão e comoção social, muitos destes indivíduos perturbados enxergam nisso uma maneira de conseguir fama pelo menos uma vez na vida, mesmo que seja temporária, negativa e mesmo que possa causar sua própria morte, a revista científica norte-americana PLOS ou Public Library of Science publicou um artigo em 2015 onde indica que cerca de 20% para 30% dos assassinatos em massa são causados a partir de um efeito cadeia, onde a cobertura nacional de eventos posteriores instigam novos massacres.

 

Existe um certo paralelo destes assassinatos em massa com os ataques terroristas, pois os terroristas também possuem um repúdio em comum, mas pela sociedade ocidental que diverge de sua religião e explorou os seus recursos, trazendo miséria e destruição para seu povo, são todavia pretextos tendenciosos em boa parte, dado que seus próprios países já eram dominados por governos tirânicos e corruptos no âmbito geral vide a Primavera Árabe, mas tendencioso também é o viés destes jovens que se sentem rejeitados sem enxergarem os próprios erros de conduta. Também podemos ver esse paralelo na busca por fama, mesmo que no caso dos terroristas esta visibilidade seja em prol de uma causa religiosa extremista.

 

O que podemos fazer a respeito destes atentados reside na conscientização das famílias de que seus filhos precisam ser melhor observados e cuidados, e que o diálogo é a melhor forma de sanar mágoas passadas, mesmo que em alguns casos o diálogo já tenha sido tentado e rejeitado, pois enquanto permitirmos que sentimentos negativos se acumulem em certos indivíduos, tudo o que eles podem precisar para externalizá-los da pior forma possível chega a ser apenas um incentivador cruel, alguém também vítima de estigmas, que de forma maliciosa se aproveitaria da ferida emocional desse outro vulnerável para alimentar a própria vingança pessoal. Enquanto isso a sociedade, em sua presença local ou total, tem a obrigação de também observar quais famílias são precárias ao ponto de contribuir com esse quadro de desajuste e fazer o possível para remediá-las, pois o que pode denegrir uma família pode também destruir uma sociedade, a preparação da polícia para perceber casos suspeitos que possam desencadear em tiroteios em massa é igualmente responsabilidade da sociedade como um todo. A mídia por sua vez deve ter bastante cuidado na divulgação desses eventos, sempre procurando não enaltecer ou engrandecer a imagem desses atiradores, tendo como foco principal seja qual for o distúrbio que eles possuem sem dar a eles a imagem que querem passar de si, a de "ameaças absolutas". Contudo é considerável que alguns destes indivíduos não mudariam o seu trajeto sangrento mesmo com todas as precauções tomadas e com toda a atenção dada desde a tenra infância, porque a "ideia do mal" pode impregnar de tal forma o espectro humano quando este perde o foco na vida que só a própria vontade do indivíduo seria capaz de dissipar tal mal por completo, além dos casos de surto psicótico onde a pessoa pode simplesmente perder a noção da realidade involuntariamente e se sentir ameaçado pelo que nem está lá, podendo reagir de forma extremamente violenta, apesar desse contratempo as medidas mencionadas acima, se tomadas com competência, seriam capazes de diminuir drasticamente estas ocorrências, sendo possível que tais massacres se tornassem episódios de raríssima frequência até o ponto que, conquanto a sociedade fosse evoluindo, cessariam em definitivo.

 

*Caio S. Duarte é um estudioso das ciências, em especial história, psicologia e geopolítica.

Titular do blog https://cotidiana-brasilis.webnode.com

 

Fontes:

https://www.gq-magazine.co.uk/article/mass-shootings-in-america-interviews

https://www.psychiatrictimes.com/couch-crisis/moving-beyond-motives-mass-shootings/

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-43916758

https://schoolshooters.info/sites/default/files/ten_lessons_1.2.pdf

https://edition.cnn.com/2015/07/02/health/contagious-mass-killings-study/

https://amok.fandom.com/wiki/William_Edward_Hardesty

https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/entenda-o-que-e-a-dark-web-e-como-ela-virou-esconderijo-para-o-crime/

https://tecnologia.ig.com.br/2019-03-14/massacre-suzano-chans.html

https://fas.org/sgp/crs/misc/R44126.pdf

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