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Re-União 2017

Velho mundo, velha hipocrisia

August 26, 2019

“Diz o roto ao nu: porque não te vestes tu?” – provérbio popular...
Os incêndios na Amazônia voltam a assombrar os países europeus e fazem tanto alarde que acham mesmo que as labaredas queimam neste instante a única chance de sobrevivência de seus povos...
Pura hipocrisia ! Por maiores que sejam os incêndios, nenhum deles vai conseguir superar aquele, criminosamente provocado, ainda em 1973, por uma empresa que é considerada uma antiga joia da coroa da rainha Ângela Merkel – a Volkswagen...
Foi tão grande e tão destrutivo que até os satélites, numa época que ainda não dispunham de tecnologias para monitorar com maior precisão a superfície da terra, produziram imagens que assombraram o mundo de verdade...
E sabem qual foi a motivação da Volks para incendiar nada menos de 70 mil hectares no sul do Pará ? Criação de gado ou a formação ali do maior complexo alimentar do mundo, com a produção do que era chamado de “gado do futuro”...
A meta de produzir 56 mil cabeças de gado nunca foi atingida...

Dez anos depois do assassinato da floresta, foram criadas apenas 27,5 mil cabeças de gado. O projeto dava prejuízo, embora 75% dos investimentos foram financiados  pelo governo brasileiro por incentivos fiscais.
Em 1986, a Volkswagen colocou a fazenda à venda por 80 milhões de dólares. Em dezembro, a empresa decidiu vendê-la por 20 milhões de dólares à família Matsubara – imigrantes japoneses do Paraná que plantavam algodão e criavam gado.
Os Matsubara, porém, não arcaram com todos os pagamentos e a Volks acabou ficando com a hipoteca da área. Somente em 1997, a montadora conseguiu se livrar completamente da fazenda, que foi leiloada e adquirida por empresários brasileiros. Atualmente, a região é palco de violentos conflitos agrários. 

CHUMBO GROSSO CONTRA A VERDADE
Nesta terceira semana de agosto de 2019, o presidente Jair Bolsonaro levantou uma hipótese absolutamente pertinente: de que os incêndios amazônicos são provocados por Ongs que tiveram seus interesses contrariados por seu governo... 
A hipótese é pertinente sim: a pecuária que sempre foi a razão dos incêndios amazônicos atenuou muito a pressão sobre a floresta na medida em que, com o desenvolvimento das técnicas de confinamento de bois, a pecuária extensiva começa a devolver suas terras à agricultura nas várias regiões do país...
Fora isso, segundo relatou o jornalista Sergio Garsshagen, o Earth Observatory, site oficial da agência espacial norte-americana Nasa, divulgou imagens de satélite que mostram queimadas no Brasil, informando que o fenômeno é tradicional, nesta época do ano, e que estão abaixo da média de queimadas dos últimos 15 anos.
A informação da Nasa desmente notícias divulgadas no Brasil, ilustradas pelas fotos do Earth Observatory, como se os sinais de fumaça registrados pelo satélite denunciassem que a Amazônia estaria “em chamas”.

EDUQUEM SEUS EMPRESÁRIOS
Um erro jamais vai justificar o outro, mas ninguém pode negar que esse dinheiro, agora rejeitado pelo governo brasileiro, que Noruega e Alemanha aplicam em fundos pela preservação da Amazônia, teria melhor uso se investido em programas de educação ambiental a empresários – e lideranças empresariais – franco-norueguesas. 
Ah, uma parte desse dinheiro deveria também ser usada para pagamento de indenizações a vítimas de empresas franco-norueguesas e para pagamento  do passivo que elas deixaram junto aos órgãos ambientais brasileiros...
Quem sabe um dia as empresas desses dois países – e de vários outros, do mundo desenvolvido, como Canadá, França, Austrália – descubram que a América Latina não pode mais ser confundida com América Latrina, como já fizeram, fazem e continuarão a fazer...

UMA LONGA ESTEIRA DE HORROR
A desfaçatez criminosa começou lá atrás, ainda em 1950,  com a francesa Penarroya entrando na comunidade de Boquira, na Bahia, para explorar uma fértil jazida de chumbo... a empresa permaneceu ali por 20 anos, encheu as burras de dinheiro  e se mandou, deixando para trás um cenário de horror: mil e duzentas pessoas mortas por contaminação de metal pesado, montanhas e montanhas de rejeitos que até hoje transferem para lençóis freáticos, rios, estuários e baias um grau de contaminação superior ao da famosa Baía de Minamata, no Japão...(a história dos horrores patrocinada pela Penarroya é contada, em texto comovente,  no livro Boquira, do jornalista Carlos Navarro, lançado  há poucos dias em São Paulo e pode ser pedido pelo facebook ao próprio autor).

SANTA DO PAU OCO
A santa Noruega também já fez das suas em terras amazônicas: o governo desse país é um dos principais acionistas da mineradora Hydro, alvo de denúncias do Ministério Público Federal (MPF) do Pará e de quase 2 mil processos judiciais por contaminação de rios e comunidades de Barcarena (PA), município localizado em uma das regiões mais poluídas da floresta amazônica.
Além de enfrentar ações na Justiça, a empresa até hoje não pagou multas estipuladas pelo Ibama em R$ 17 milhões, após um transbordamento de lama tóxica em rios por uma de suas subsidiárias na região amazônica, em 2009. Segundo o Ibama, o vazamento colocou a população local em risco e gerou "mortandade de peixes e destruição significativa da biodiversidade".

CHUVA DE PRATA, NUM BRINDE DE ÂNGELA MERKEL
Enquanto isso, na Baía de Sepetiba, no bairro carioca de Santa Cruz, um projeto siderúrgico pareceu afrontar o mito da perfeição da tecnologia industrial alemã: inaugurada em 2010 em cerimônia que reuniu o ex-governador Sérgio Cabral e o ex-presidente Lula, a CSA era inicialmente tratada como a principal aposta da estratégia da Thyssenkrupp, genuinamente alemã,  para a consolidação de sua posição como player global da indústria do aço. Ao todo, o negócio custou R$16,64 bilhões, dos quais R$ 683 milhões foram financiados pelo Estado do Rio de Janeiro através de isenções fiscais e outros R$2,3 bilhões financiados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social (BNDES).
(Atenção presidente Bolsonaro: veja se o passivo dessa empresa está na caixa preta do banco, taokay ?)
O projeto, contudo, apresentou desde o início da operação uma falha insanável de emanação de pó de grafite, que reluzindo ao sol pareceu sempre com uma “chuva de prata” que não parava de cair sobre a numerosa população do bairro... Ainda em 2017, já sob gestão da Ternium, sucessora da CSA, a substância tóxica continuava a cair adoecendo centenas de pessoas, que passaram a reclamar na justiça por indenização...E persistiam  também os relatos sobre a manifestação de doenças dermatológicas, oftalmológicas e respiratórias.
Em poucos anos, no entanto, os irreversíveis impactos socioambientais e um enorme prejuízo comercial, segundo estudo realizado por Sandra Quintela e Gabriel Strautman,  fizeram com que o projeto passasse a ser considerado pelos meios especializados como um dos piores negócios da indústria alemã em todos os tempos. Não à toa, a Ternium, grupo franco-argentino, conseguiu comprar a siderúrgica por apenas um terço do seu custo, ou seja, €1,56 bilhões, aproximadamente R$5 bilhões. 


SÓCIA DA VALE NO CRIME DE MARIANA 
Não podemos nos esquecer jamais que a australiana BHP-Billiton detém até hoje 50% da Samarco, responsável pelo até agora maior acidente ambiental brasileiro: uma barragem de rejeitos de mineração de ferro estourou em novembro de 2015 e derramou na bacia do Rio Doce 34 milhões de metros cúbicos de lama contaminada por vários tipos de metais pesados. E o que é ainda mais grave: há relatórios geológicos que alertavam a empresa, com grande antecedência, dos riscos de estouro da barragem caso continuasse a depositar nela, como fez, mais e mais rejeitos.
Dezenove pessoas morreram, vilarejos inteiros foram soterrados, o Rio Doce foi morto em quase toda sua extensão e a lama escorreu pesada até o mar, deixando vários municípios de Minas e Espírito Santo sem água potável por várias semanas.

UMA EPIDEMIA DE CÂNCER EM PARACATU 
Paracatu, a noroeste de Minas Gerais, é o território da canadense Kinross, que explora uma jazida de ouro...Para extrair o minério, a empresa explode rochas e as explosões espalham nuvens de um pó que tem como um de seus componentes nada menos que arsênio, substância altamente cancerígena...
A empresa nega a contaminação, mas ainda em 2014, em  entrevista à TV (Bandeirantes), o diretor do hospital de câncer de Barretos, Boian Pretov,  confirmou que só nesse ano  foram realizados 1.153 atendimentos de pacientes, vindos de Paracatu...

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