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Re-União 2017

O assombroso discurso de Iván Duque na Assembléia Geral das Nações Unidas

October 1, 2019

Todos sabemos que o discurso de Bolsonaro na ONU foi bombástico; não menos bombástico, no entanto, foi o discurso que Iván Duque, o presidente da Colômbia, realizou na assembléia das Nações Unidas, no dia 25 de setembro; como Bolsonaro, ele não economizou nas declarações bombásticas proferidas aos líderes políticos de centenas de nações. 

 

Reiterando os principais problemas sofridos pelos países latino-americanos nos anos recentes, o ponto forte do discurso do presidente colombiano sem dúvida ocorreu quando ele — depois de ressaltar a obrigação e a importância de defender princípios soberanos como a democracia e a liberdade — falou da "brutal ditadura de Nicolás Maduro", e de como, por causa dela, mais de quatro milhões de venezuelanos foram obrigados a fugir do seu país, para escapar da miséria, da fome e da tirania; destes, um milhão e quatrocentos mil buscaram refúgio na Colômbia. Ele lembrou que a crise migratória foi uma questão levantada e debatida pela Colômbia na Assembléia Geral das Nações Unidas no ano passado. Iván Duque afirmou que o problema se estenderá por tanto tempo quanto se prolongar a permanência de Nicolás Maduro no poder. Ele disse que seu país, assim como todas as repúblicas que integram o Grupo de Lima, bem como muitas outras nações ao redor do mundo, reconhecem e apoiam o candidato da oposição, Juan Guaidó, como o presidente legítimo da Venezuela, para assumir o poder e colocar um fim à ditadura bolivariana. 

 

Iván Duque falou abertamente sobre a decadência e a deterioração da sociedade venezuelana; ele recordou como o país fora uma sólida democracia plena no passado, e hoje se desintegra em uma deplorável situação de opressão e ruína. Ele também enfatizou o glorioso passado de pujança e fartura da nação sul-americana, lembrando que a Venezuela já foi um dos países mais ricos e prósperos do mundo, mas que hoje se encontra em uma situação diametralmente oposta, estando no limiar da miséria e da destituição absoluta, tendo sido "um poder econômico" que "hoje destrói toda a iniciativa privada".

 

Entre suas declarações mais bombásticas, o mandatário colombiano afirmou que a Venezuela está apoiando ativamente grupos terroristas de alcance internacional, e seu governo é basicamente financiado por toda a sorte de atividades ilícitas. Iván Duque afirmou que "é necessário chamar as coisas pelo seu nome", e disse que "a ditadura venezuelana é mais um elo da cadeia do terrorismo transnacional, e suas estruturas corruptas são serviçais dos cartéis de drogas".

 

Invariavelmente, toda essas atividades criminosas não respeitam fronteiras, e o que muitas vezes acontece em um país terá dramáticas repercussões em outro. Iván Duque afirmou que diversas conexões entre o narcoterrorismo e o governo bolivariano são deliberadamente orquestradas para desestabilizar a Colômbia. "Meu governo tem evidências confiáveis e contundentes que corroboram o apoio da ditadura a grupos criminosos e narcoterroristas que operam na Venezuela para atentar contra a Colômbia". 

 

Iván Duque disse que compilou um dossiê substancial com provas irrefutáveis que comprovam todas as suas alegações, e o mesmo seria entregue ao presidente da assembléia e ao secretário-geral da ONU. Logo em seguida, ele mostrou o dossiê, um conjunto de documentos encardenados de cento e vinte e oito páginas, cuja capa tinha o mapa da Venezuela em destaque. "Esse dossiê (...) contém o acervo de evidências que demonstram a cumplicidade do regime de Nicolás Maduro com os cartéis terroristas que atentam contra o povo colombiano".

 

Junto a este relatório, ele pretende entregar também uma lista com os nomes de vinte "traidores", indivíduos que foram integrantes das FARC, mas que — em desprezo à anistia geral que perdoava os guerrilheiros, contanto que renunciassem à violência — teriam regressado à luta armada, e hoje estariam residindo na Venezuela, usufruindo de facilidades e apoio disponbilizados pelo governo bolivariano. Durante sua campanha para presidente, Iván Duque fez questão de manifestar sua ojeriza pela anistia, afirmando que os guerrilheiros deveriam ser tratados como criminosos, e que deveriam pagar pelos seus crimes. 

 

Iván Duque afirma que o governo do ditador Nicolás Maduro não apenas apoia, como financia os principais grupos criminosos da região, e concede refúgio a poderosos contraventores colombianos. Basicamente, todos os grandes barões do narcotráfico tem conexões na Venezuela, que estão protegidas por alianças com o governo. Em decorrência disso — o que é agravado pela deplorável corrupção policial sistemática da Venezuela, que colabora com o crime, ao invés de combatê-lo, e também pelo fato de que, como ressaltou Iván Duque, todas as instituições foram cooptadas pelos interesses nefastos da ditadura de Maduro —, muitos desses grupos que pertencem ao crime organizado tornaram-se intocáveis. 

 

Apesar das dificuldades e dos desafios apresentados, Iván Duque reafirmou o compromisso do seu governo de fazer o possível para combater o narcotráfico. "O narcotráfico é um predador do meio-ambiente, da sociedade humana, é o ninho da corrupção e o combustível do terrorismo (...) Uma das piores consequências do narcotráfico é que alimenta a corrupção, debilita as instituições e infecta o tecido social". 

Ele ressaltou o papel do narcotráfico — que fez questão de reiterar, é um problema global — para o desenvolvimento de ilícitas economias paralelas, que muitas vezes acabam financiando outras atividades criminosas. Também enfatizou a importância de combater não apenas a produção, mas também a distribuição e o consumo de substâncias nocivas, sendo fundamental para isso ter planos de ação direcionados para todas as etapas do ciclo de vida útil dos entorpecentes. 

 

Iván Duque também acusou Maduro de estar financiando ativamente o ELN, Ejército de Liberación Nacional, um grupo paramilitar de extrema-esquerda em atividade na Colômbia desde 1964, que teria ganhado fôlego renovado com o financiamento do governo bolivariano, o que provocou uma nova onda de conflitos políticos violentos na região. O ELN é uma praga que tem provocado enorme instabilidade no cenário político colombiano há décadas, e todos os acordos de paz realizados acabaram sendo frustrados — em sua maioria — por interferência externa de grupos interessados em manter o conflito e em perpetuar o estado de calamidade na região. O ELN é uma expressiva ramificação do narcotráfico, tanto na Colômbia quanto na Venezuela. Como Iván Duque falou, "a Venezuela se converteu em território fértil para estruturas criminosas aliadas ao ELN, que não conhecem fronteiras". 

 

Iván Duque afirmou que no seu relatório, compilou diversos dados que mostram como o governo de Nicolás Maduro os financia, e como algumas de suas ramificações controlam determinadas regiões do território venezuelano. Ele também falou da existência de campos de treinamento e de vinte pistas de pouso em regiões inóspitas para pequenos aviões a serviço do narcotráfico. Seu relatório também contém depoimentos de cidadãos venezuelanos que são intimidados por milícias da ELN, que monopoliza territórios de seu interesse para o narcotráfico. Falando sobre o seu relatório, o presidente colombiano disse que ele apresenta "uma evidência inequívoca que comprova o patrocínio e o apoio da ditadura de Nicolás Maduro a essas estruturas criminosas".

 

Apesar de tudo, Iván Duque não acredita que um confronto direto com a Venezuela seja necessário; à despeito de algumas provocações — Maduro ordenou alguns exercícios militares em regiões de fronteira com a Colômbia —, o presidente colombiano acredita que a diplomacia apresenta o único caminho a ser seguido pelo seu país. "A Colômbia não é e nunca será um país agressor, nem se deixará provocar por insinuações bélicas". Até porque um conflito entre Venezuela e Colômbia provavelmente acabaria afetando outros países da região, como o Brasil, arrastando os mesmos para uma guerra de imensuráveis e drásticas proporções.  

 

Iván Duque também afirmou que a exploração da Amazônia é resultado das atividades destes mesmos grupos criminosos, que tem parte da sua renda originária da extração bruta de matéria-prima: "O desmatamento da Amazônia, em todas as nossas áreas, está diretamente relacionado com a ilegalidade, com grupos armados à margem da lei, que buscam espaço para suas atividades ilícitas, alimentadas pelo narcotráfico." Ele também falou que todos os países amazônicos — o que evidentemente inclui o Brasil — assinaram um pacto para a proteção e preservação da Amazônia. O mandatário colombiano também afirmou que, em parceria com outras nações, pretende criar um tribunal internacional para combater crimes de caráter transnacional. 

 

Em seu discurso, Iván Duque comparou Nicolás Maduro com o antigo ditador socialista da Sérvia, Slobodan Milošević, também conhecido como o carniceiro dos Balcãs. Ainda que pareça exagero, Milošević — um dos piores genocidas da história humana — presidiu um regime tão despótico, corrupto, brutal e cleptocrático quanto o de Nicolás Maduro. 

 

O presidente colombiano reiterou que a situação vigente na Venezuela representa  uma "ameaça regional", que confere grande instabilidade a todos os países do continente. "O conjunto dessas atividades criminosas, associada à crise humanitária, gerada pela deterioração política, econômica e social na República Bolivariana da Venezuela, representa uma ameaça para a manutenção da paz e da segurança no continente". 

 

"A Venezuela precisa do fim da usurpação, da instalação de um governo de transição, de um governo que permita a recuperação econômica e social, e necessita da convocação urgente de eleições verdadeiramente livres e a recuperação do império da lei."

 

Duque finalizou o seu discurso afirmando que "não podemos ser testemunhas indolentes de tanta dor em nossa América Latina". Além de defender a aplicação de rígidas sanções contra o regime de Maduro, confirmou seu apoio à defesa da democracia na Venezuela. No entanto, disse que sem o apoio da comunidade internacional, a situação precária da Venezuela evidentemente não irá mudar. "É hora de firmeza para enfrentar a tirania". Seu discurso, evidentemente, foi relevante. Agora, vamos aguardar, e ver se todas essas palavras se transformarão em ações práticas, enérgicas e efetivas. Evidentemente, não depende apenas dele, mas de todos os principais líderes políticos estarem dispostos ou não a reunir forças, para reverter a dramática situação que drena a vitalidade e os recursos — cada vez mais inexistentes — da Venezuela.   

 

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