© Todos os direitos reservados

Re-União 2017

O prófe arrependido

October 15, 2019

Hoje, dia do mestre, é impossível não contar a história magnífica do brilhante e dedicado professor Sandoval. 

Filho de uma costureira semi-analfabeta e de um trocador de ônibus beberrão, ele andava diariamente nove quilômetros para poder estudar, na distante década de cinquenta. À custa de muito empenho e esforço, conseguiu ingressar na faculdade nacional exatamente no ano da graça de 1964. Antes dos anos setenta já estava formado, precisamente em 1973 passou em disputada prova para o magistério.

 

Assumiu de pronto a cadeira de português da escola General Frederico Justo, no centro da cidade do Rio de Janeiro, onde lecionou por toda a sua vida. Suas aulas eram brilhantes, sua dedicação amorosa enternecia, seu conhecimento contagiava. Mestre com "M" maiúsculo!

 

Por escolha própria, aos setenta e três anos ainda estava no chão da classe, ensinando regência verbal e orações coordenadas sindéticas e assindéticas para turmas e mais turbas de adolescentes.

 

Em 2015, uma hérnia inguinal e várias pedras nos rins convenceram o professor Sandoval a - finalmente e muito merecidamente - descansar. Ninguém na escola General Frederico Justo acreditou:

"Não pode ser! Jura?!"

"Ai, vou morrer de saudade."

"É o fim de uma era!"

 

Em seu último dia de aula, após o toque final da sirene, classe já vazia e tarde se esvanecendo, professor Sandoval se sentou na última carteira da sala e começou a rememorar os muitos momentos que passara naquele local mágico. As lágrimas invadiam seu rosto enrugado quando uma voz estridente tomou conta de tudo:

 

- Professor Sandoval! Professor!!!

 

Era uma loira quarentona espalhafatosa, cheia de vida e alegria.

 

- Não está me conhecendo, Prófe?!

 

- Perdoe-me, foram tantos anos de aulas...

 

- Sou a Vera Miranda! A Mirandinha!!!

 

O nome começou a fazer sentido na combalida memória do Professor Sandoval. Mirandinha prosseguiu, estendendo uma folha amarelada de caderno espiral. As linhas, de azuis estavam meio verdes; as letras, de pretas pareciam cinzas.

 

- Leia, prófe!

 

E ele leu o que poderia ser considerada a pior redação de todos os tempos, desde que Adão derrubou a árvore do conhecimento do bem e do mal para fazer uma resma de papel e redigir cartas de amor para Eva. A redação era simplesmente horrorosa, contendo dez erros de português a cada cinco palavras e exibindo um sem número de absurdas ideias ininteligíveis.

 

- Prófe, agora leia o que o senhor escreveu no verso! Leia!

 

Ele leu:

 

"Mirandinha, nunca desista."

 

Ela prosseguiu:

 

- Prófe, se hoje sou professora de português, agradeço ao senhor!

 

- Jura? Logo de português? - perguntou professor Sandoval, perdendo o ar.

 

- SIM, professora concursada! Dou aula no Pedro Secundo, onde ensino que português é para comunicar e procuro unir política e gramática. Graças ao seu incentivo, graças ao "nunca desista".

 

- Jura?! Por minha causa? - professor Sandoval perguntou, com muito medo da resposta.

 

- O senhor me inspirou! Quando soube que hoje seria seu último dia de aula, vim correndo pra cá.

 

- Não precisava, meu Deus. Eu não precisava saber disso - professor Sandoval lamentou, cheio de taquicardia.

 

- Agora me dê uma beijoca! Preciso levar uns alunos até o Circo Voador! Trabalho de campo!

 

E Mirandinha se foi, deixando o Professor Sandoval com todo o remorso do mundo.

 

Ele se levantou da carteira, deixou o recinto, entrou no almoxarifado e pegou uma corda bem forte, que estava sendo usada pelos pintores na reforma da fachada do colégio.

 

Enforcou-se na sala de professores.

 

Hoje, tramita na Câmara de Vereadores uma proposta para que o nome da escola General Frederico Justo passe a ser Professor Sandoval arrependido.
...

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Posts Em Destaque

Futurologices

November 14, 2019

1/10
Please reload

Arquivo
Please reload

Siga
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square