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Re-União 2017

A funcionária do mês

October 26, 2019

Era um dia como outro qualquer, lá no céu. Querubins sorridentes aparavam nuvens fora de corte, santos piedosos davam workshops, escolhidos faziam check-in e um bando de espíritos de porco eram barrados no portão:

- Não posso deixar você entrar, minha doce alma meio encardida.

- Como assim?! Veja esse livro direito! Deve constar aí que eu cuidei da erisipela da minha sogra.

 

- Sim, cuidou tão bem que ela morreu. Mas lá embaixo vocês terão muito tempo para colocar o papo em dia. Tchau, um abraço!

- Nem um purgatoriozinho?

- Nem.

 

Enfim, fora uma ou outra queixa e alguns muxoxos quase inaudíveis, tudo funcionava na santa paz do senhor. Funcionava, até a chegada de uma senhora loira de óculos na ponta do nariz, toga nas costas e fala soporífera.

 

- Eu gostaria de fazer uma importante sustentação oral - disse ela.

 

- Oi?! - o anjinho da portaria estranhou.

 

- A sociedade metafísica reclama, e com razão, que o processo salvífico ofereça uma resposta célere e efetiva. Tal exigência, no entanto, não pode ser atendida ao custo da supressão das garantias fundamentais asseguradas no texto divino, garantias estas lá encartadas para proteger do arbítrio e do abuso os membros dessa mesma sociedade.

 

- Senhora, eu não entendi nada.

 

- Em certo sentido, uma interpretação adequada de uma condenação é uma descoberta. O texto normativo carrega em si uma intenção significativa que, se não tem o condão de imobilizar o intérprete, fixa as balizas para o seu movimento, jamais podendo ser desprezada por ele. Em síntese, a presunção de inocência, assegurada desde a gênese, lida segundo a ótica dos mandamentos, perdura, íntegra, enquanto não transitar em julgado a decisão condenatória.

 

- Pode me dar dois segundos, senhora? Vou dar uma interfonada para chamar São Pedro. Essas coisas assim mais difíceis é ele quem resolve.

 

- Vou além: o princípio da presunção da inocência, nessa versão moderna, tem um significado diverso do mero adágio in dubio pro reo, traduzindo, a formulação, a ideia de que a responsabilidade deve ser provada acima de qualquer dúvida razoável, o que impõe, com acerto, um pesado ônus probatório à acusação.

 

- A senhora está querendo dizer que não podemos condenar ninguém à danação?

 

- Ainda vou falar por mais umas três horas, mas você fez um resuminho bom.

 

E ela continuou falando. Muito, falando muito. Pedro chegou correndo, esbaforido, e a dona nem deu atenção. Prosseguiu falando, usando todo o latim do mundo para proibir cadeados e trancas nos portões do céu.

 

- Precisamos de um advogado! - o santo das chaves concluiu, preocupado.

 

- Advogado!? Aqui?! Nunca vi entrar - respondeu o anjo da guarita.

 

Na falta de uma contraposição jurídica à altura, a tal senhora conseguiu liberar geral a entrada no céu. São Pedro, coitado, teve de ceder.

Pouco tempo depois, com gente ruim entrando a rodo, o paraíso se transformou em um inferno.

 

Bem feliz com a expansão dos seus domínios, o chefão das profundezas abriu um espumante para comemorar, e anunciou, em alto e bom som.

- Rosa é a funcionária do mês!
...

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