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Re-União 2017

O filme Coringa e o louvor ao degenerado

October 26, 2019

Reflexões sobre como o atual filme do Coringa mostra um perigoso relativismo moral voltado ao egoísmo.

Tenho acompanhado pelas redes sociais todo o frenesi envolvendo o filme “Coringa”, o que me despertou a vontade de ir ao cinema. Hoje, após assistir ao filme, resolvi escrever minha análise (atenção, contém spoilers).

 

O filme, em seu contexto geral, volta-se a problematizar a “invisibilidade social” e suas consequências. Sob este enfoque, apresenta-nos a perspectiva de um doente mental que mora com a mãe, também mentalmente enferma, em um apartamento humilde situado em um bairro degradado, não tem amigos, possui dificuldades em relacionar-se social e amorosamente, sonha em ser comediante mas tem zero talento para isso, trabalha em um subemprego e é constante vítima de agressões físicas e verbais na rua, violência que, no filme, está associada ao seu jeito “esquisito” de ser, principalmente às suas risadas fora de hora e de contexto, atribuídas a um distúrbio neurológico que o acomete.

 

A certa altura, a personagem principal começa a sofrer humilhações e agressões de três mauricinhos engravatados no metrô quase vazio, quando então comete o seu primeiro ato de violência: um triplo homicídio. A partir daí, enquanto a imprensa e as autoridades tentam descobrir a identidade do autor dos disparos, brota em Gotham uma literal revolta dos pobres contra os ricos, um fidedigno retrato da luta de classes marxista, agitação ainda agravada pela entrevista de Thomas Wayne ao jornal, quando então o magnata diz algo como que “aqueles três garotos mortos foram vítimas da inveja dos que não são bem sucedidos”, qualificando também estes últimos – os que não conseguiram sucesso na vida - de “palhaços”.

 

Nunca antes em um filme (ou mesmo nos quadrinhos) do Batman a família Wayne foi representada de forma tão apartada da moral e do senso ético, tão individualista e materialista, tão esnobe e debochada. Trata-se, obviamente, de uma proposital construção cinematográfica que apenas repete a narrativa da esquerda, mormente ao tentar incansavelmente incutir no povo a ideia de que todo capitalista, ou melhor, todo rico, é explorador, egoísta e ganancioso, alheio às dores do mundo e protegido, pelos altos muros de sua mansão, do contato com a pobreza, com a violência e com todo tipo de iniquidade que aflige os menos favorecidos.

 

Interessante também o fato de o filme, que tem 2 horas e 2 minutos de duração, reservar quase 1 hora e 30 minutos apenas para descrever as agruras de Arthur Fleck, futuro Coringa, várias delas um tanto quanto superficiais ou até mesmo merecidas. Por exemplo, frustra-se demasiado o protagonista por ser demitido de seu emprego de palhaço após a sua arma de fogo cair no chão durante uma apresentação que fazia em um hospital infantil; decepciona-se irremediavelmente ao tentar fazer um show de stand up não muito bem recebido pela audiência e depois criticado no programa televisivo de sua predileção; encoleriza-se por não ser filho de Thomas Wayne e, assim, não poder desfrutar, sem nenhum esforço, das facilidades que a riqueza e a fama da família lhe proporcionariam.

 

Assim é que, exibindo rasas desilusões entremeadas por um passado e um presente de brutalidade – o que não difere da jornada de muitos bons cidadãos que, apesar de todas as mazelas, não se voltam para o crime – o filme despende considerável energia para tentar justificar todo o rancor, o ressentimento e a crueza do Coringa, como se a coletividade tivesse para com ele um débito impagável. O vilão é claramente alçado à condição de vítima da sociedade, e é sob este fundamento que a película parece tentar legitimar as atrocidades por ele perpetradas, jogo de cena que fica muito claro quando o Coringa resolve poupar da morte um ex-colega de trabalho seu, dizendo: “pode ir, você foi o único bom para mim”.

 

Por outro lado, é praticando as suas crueldades que o protagonista sai da sua condição inicial de invisibilidade: agora, para além de ser visto, é adorado por aqueles que se encontram em situação similar; transformou-se na verdadeira encarnação de um símbolo - o símbolo da “resistência”, da luta contra “o sistema”, isto é, da luta contra a opressão dos pobres pelos ricos.

Trata-se, pura e simplesmente, da ovação ao degenerado. É como se o sofrimento, independentemente de suas causas, conferisse ao sofredor um salvo-conduto para infligir dor aos outros. É como se o fato de a sociedade não prestar atenção a um determinado indivíduo conferisse a ele o direito de aniquilá-la.

Nestes termos, a lógica do filme parece incontornável: se o corpo social transformou o Coringa neste monstro, notadamente as elites, quando optaram por não enxergá-lo, como culpabilizá-lo por sua maldade intrínseca?

 

Certamente é com esta dúvida que muitos estão deixando as sessões de cinema e, certamente, foi esta a intenção do cineasta: disseminar escusas para o mal que as supostas “vítimas da sociedade” praticam, em ordem a exonerá-las da responsabilidade por seus atos.

 

*Dri Nogueira é procuradora do Estado de Goiás

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