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Re-União 2017

Brexit,finalmente

February 3, 2020

Temos ouvido bastante sobre a tragédia que será o Brexit para o futuro do mundo globalizado como o conhecemos. Processo este que, finalmente, foi colocado em prática nessa última sexta dia 31 de janeiro de 2020, 3 anos e meio depois de sua votação. 

Esse conceito de “tragédia” é mais um dos mitos atuais a serem desmistificados. É verdade que viveremos diversas incertezas no futuro próximo. Porém, no médio e longo prazo, o Brexit não terá sido uma negação ao livre comércio, que tanta prosperidade trouxe ao mundo até hoje, mas sim uma recuperação da soberania do Reino Unido por sua população.

 

O Brexit é, de fato, não uma oposição à globalização, mas sim ao globalismo. Apesar da aparente semelhança entre ambos, seus nomes representam fenômenos muito distintos. 

A globalização é, em sua essência, um fenômeno econômico e sócio-cultural, ocorrido de forma espontânea ao longo de décadas. É a descrição de um processo NATURAL de aproximação das nações, através do livre comércio de bens e serviços, cada vez mais facilitado pelo progresso tecnólogico dos últimos 30 anos. Processo este que acabou por gerar uma relevante aproximação cultural de diversos países que passaram a “importar áreas de excelência” um dos outros. 

 

Já o globalismo, nada tem de natural. Seu fortalecimento trata-se, entre outras razôes, de uma reação por parte da elite burocrática mundial, aliada ao topo da pirâmide do poder econômico privado, ao fenômeno da globalização econômica em si. Ao perceber que esta se tratava de um processo irreversível e de profundos impactos , esta elite entendeu por necessário o estabelecimento de uma nova estrutura de poder político de alcance global, a qual pudesse “controlar e regular” o mundo tal qual o conhecemos. É o famoso “se não pode ir contra eles, junte-se a eles”. O globalismo, portanto, trata-se de um fenômeno político e de engenharia social. Não tem NADA de espôntaneo. 

 

As origens da União Européia ( através da Comunidade Econômica Europeia), bem como da ONU, são de várias décadas atrás. Surgiram oficialmente como virtuosas organizações de cooperação voluntária entre as nações com o objetivo da manutenção da paz e prosperidade entre os países, após duas terríveis guerras mundiais.

 

Porém, nas últimas décadas, estes dois organismos supra-nacionais tornaram-se instrumentos de transferência de poder das soberanias nacionais para uma elite burocrática global cada vez mais centralizadora, os tais “globalistas”. Essa elite, que em parte não fora eleita pela população de seus países membros, gradativamente passou a impor leis e regras às populações locais. A ignorância, por parte da mesma, da vontade popular, gerou uma gradual crise de representatividade em escala que, hoje, transcende fronteiras. Novamente, é importante lembrar, que uma parcela destes burocratas não prestam contas aos eleitorados nacionais. 

 

O Brexit serviu de freio para a progressiva perda da soberania britânica. Os britânicos tem deixado claro o desejo de serem parte de um mercado comum com os Europeus e de fecharem acordos com outros países fora da Europa. Nigel Farage foi explícito: “Queremos o mercado comum, não queremos uma união política. Nós (dos partidos Brexit e Ukip) amamos a Europa, mas odiamos a União Europeia.”

 

Os representantes da EU, no entanto, tiveram até o momento uma postura combativa e não de cooperação. A mentalidade vigente vinha sendo praticamente extorsiva. A mensagem tem sido: “se o Reino Unido quer livre comércio conosco, tem que aceitar a união politica.” 

A globalização só poderá continuar em pleno vigor, se for dirigida pelos globalistas. Para eles, a negociação independente dos termos de comércio entre países e seus líderes, não funciona. 

Os britânicos não concordam com os líderes da EU. Querem a globalização, mas rejeitam o globalismo. 

 

É interessante lembrarmos que o Brasil do início da década de 90 teve membros da esquerda que vociferavam a globalização como um perigo ao mundo, para depois rechaçar qualquer tentativa de escapar das diretrizes da ONU em áreas diversas. É a velha lógica marxista de luta contra a liberdade econômica inerente aos humanos através de estruturas de poder centralizadas no topo, em escala global. 

 

Agora, é fundamental ampliarmos a lente histórica para visualizarmos a real importância do Brexit na trajetória da civilização ocidental.

Trata-se de uma especie de “nova revolução liberal” ao melhor estilo britânico, comparável, talvez, à assinatura da Carta Magna no século XIII ou à Revolução Gloriosa do século XVII e o estabelecimento do “English Bill of Rights”. 

Em suas épocas, esses acontecimentos históricos sinalizaram a percepção pela sociedade britânica das ameaças que estavam sofrendo de seus governantes, e assim decidiram impor limites aos mesmos. Visavam reconectar o poder estabelecido com os cidadãos e assim, manter a sua liberdade. 

Podemos dizer que essa recuperação das “tradições britânicas” nunca buscou uma ruptura institucional como a que ocorreu nas Revoluçôes Francesa ou Russa, as quais tinham como objetivo a substituição completa das estruturas vigentes de poder por um novo tipo de governante e de governados. Queria-se um “novo homem” e no caso da França, um novo calendário também! 

O fato é que ambas resultaram em verdadeiros banhos de sangue, e foram as sementes dos genocídios que vivenciamos no seculo XX. A Revolução Gloriosa Inglesa, por sua vez, ficou conhecida como a “revolução sem sangue”.

 

Devemos aos britânicos o nascimento das ideias de respeito aos direitos individuais, aos valores liberais que mais tarde dariam origem ao Estado moderno, com o modelo de democracia liberal que gerou níveis de prosperidade como nunca havíamos tido até então.

 

No século XXI, o Brexit foi a primeira reação concreta no mundo contra o “globalismo”, sendo seguido pelas eleições de líderes considerados “nacionalistas e populistas” nos EUA, Brasil, Itália, Polônia e Hungria, para citar alguns. Esses movimentos tem sido protagozinados por uma “maioria silenciosa” que tem ousado reagir à sorrateira apropriação de poder pelos burocratas estatais, uma classe patriarcal que acredita saber o que é melhor para a sociedade, e por isso não precisa ouvi-la, ou respeitá-la.

 

Lembremos, em 2016, Hillary Clinton chamou essa maioria silenciosa de “deploráveis”, pois ousaram discordar das diretrizes impostas por uma elite cada vez mais desconectada com a realidade.

Esta reação “nacionalista” não objetiva um isolamento econômico ou cultural, mas sim o fortalecimento da soberania de cada povo. Ela estimula o livre comércio, porém com o cumprimento de regras justas negociadas entre os países. Ela apoia a imigração, desde que com controle e critérios decididos pelo país, e não com “fronteiras abertas”. Busca o respeito e a igualdade dos direitos individuais e comuns a todos perante a lei e não de acordo com os rompantes de “justiça social” definidos por progressistas “iluminados”, que anseiam pela imposição do conceito de igualdade em detrimento do bem mais básico do ser humano, a liberdade.

 

Em suas histórias, tanto os EUA, a Inglaterra e a Suíça tiveram suas raízes como nações firmadas pela necessidade de cooperação entre pequenas comunidades, principalmente por motivos de segurança contra ameaças externas. Foram países formados de maneira voluntária e cuja união sempre respeitou a autonomia dos governos locais.

Na Suiça, os cantões têm ainda mais autonomia do que a Confederação Suiça em si. Embora talvez os EUA e o Reino Unido não tenham mantido o mesmo nível de autonomia local como os suiços, ambos preservaram mecanismos de poder decentralizados, o que talvez seja a mais importante salva-guarda contra a tirania. Isto possivelmentez seja um dos principais aspectos da tradição britânica liberal.

Portanto, aqui vimos um desenvolvimento de uma nação feito da base para o topo, com o poder central “recebendo” e não “se apropriando” de poder das populações.

 

O oposto ocorre com a União Européia, que aspira a criação de uma nação europeia por meio de uma engenharia complexa com a instalação progressiva de poder centralizado em Bruxelas. O que teve início como um mercado comum, evoluiu para uma tentativa de se criar uma união política completa, com estruturas regulatórias, legais, fiscais, monetárias e até mesmo militares. Não é de se admirar que Charles Gave tenha chamado a União Europeia de “Nova União Soviética”, nem que os suiços tenham ficado de fora desde sempre; como não foi um acaso a rejeição dos britânicos à união monetária da zona do Euro há duas décadas.

 

A reação de Mairead McGuiness, vice-presidente do parlamento europeu, ao discurso de Nigel Farage no dia do Brexit escancarou a tirania de Bruxelas. O microfone de Farage foi cortado assim que ele levantou uma minúscula bandeira britânica simbolizando o histórico momento vivido. Como ele pode ter ousado ostentar o símbolo que representa séculos de tradição em um órgão cujo objetivo é a união de todos em torno de uma recém-criada bandeira única? Uma bandeira azul com estrelas amarelas idealizadas por pessoas que não representam povo algum, e que almejam apenas um projeto de engenharia social? 

De quebra, Mairead ainda repreendeu Farage pelo uso da palavra “ódio” ao se referir à estrutura da EU. Que absurdo ele colocar as coisas em contexto emocional do povo ? Na visão dos líderes europeus, todos devem amar a EU. Odiar esta organização seria impensásel, ou mesmo proibido.

 

O que a elite burocrática européia falha em entender é o “pecado original” da EU. O problema não é somente o fato de alguns burocratas não-eleitos decidirem o futuro de cidadãos europeus, mas também que os eleitos prestam contas somente aos eleitores de seus próprios países.

Alguns anos atrás Merkel acolheu 1 milhão de refugiados na Alemanha. Sem consultar os alemães e muito menos os europeus. Porém ao menos ela ainda tem prestado contas aos cidadãos alemães. Já um cidadão do interior da Inglaterra ou da Italia que estivesse insatisfeito com a decisão, não possuia meios para se expressar a respeito. Merkel nunca prestará contas a eles. Nunca terão voz alguma no tocante à política de imigração no nível europeu. 

Esta crise de representatividade, em parte causada pela ausência do sentimento histórico de uma nação única européia, não parece ter solução democrática visível. Quando o poder não emana naturalmente do povo, uma forma de compensação usual é a centralização de poder e uso da força.

 

Após décadas de “mais Bruxelas e menos Londres”, o Reino Unido passa a ser “mais Londres e menos Bruxelas”.

Como disse Ronald Reagan: “ A liberdade nunca está a mais de uma geração de ser extinta. Ela não pode ser transmitida hereditariamente para nossos filhos. Devemos lutar e proteger a liberdade, e ensiná-los a fazer o mesmo”

Devemos agradecer aos britânicos por liderarem, mais uma vez, a luta pela liberdade.

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